sábado, maio 14, 2011

Do Jazz ao Samba, entrevista com o diretor

Do Jazz ao Samba é um documentário que se propões a analisar a interação entre esses dois ritmos musicais e a exportação da música brasileira. Bruno Veiga Neto, que conta com uma experiência em audiovisual de 15 anos assinando produções em canais como Multishow, Canal Brasil e STV, passou pelo Rio de Janeiro, Salvador e Nova Iorque captando e dirigindo o filme. Os convites pra exibição em países como Estados Unidos, Portugal, Holanda, Índia e China mostram o potencial do documentário que está ameaçado não sair no cinema. Os custos de pós produção chegam nos R$40.000 e a alternativa que o diretor encontrou foi o Crowd Funding, ou financiamento coletivo. Confira o teaser do doc e a entrevista exclusiva. Não deixe de acessar e divulgar a página que pode finalizar esse documentário que promete.


Qual sua motivação pessoal e envolvimento com o tema que o levou a dirigir o documentário?

Eu estava em Nova Yorque para cobrir o Festival de Cinema Brasileiro em Nova Iorque para a Inffinito, empresa realizadora, e uma amiga minha fotógrafa chamada Mari Vianna, me convidou para visitar um Pub de Jazz no Harlem, um dos únicos remanescentes que faz jazz para o povo, diferente de outros clubes que se estruturaram para receber turistas. Lá comecei rodando um curta metragem, mas a medida que fui entrevistando os jazzistas percebi que todos, quando sabiam que eu era brasileiro, falavam da música brasileira como se estivessem falando de algo divino. Teve um dos músicos que até aprendeu a falar protuguês para entender as músicas da Bossa Nova, em especial Tom Jobim. Foi isso que me motivou a produzir um longa metragem sobre a influência da música brasileira no Jazz e seu reconhecimento no exterior, muitas vezes desconhecido pelo público brasileiro.

Não é preciso ser especialista no assunto pra perceber as confluências do jazz com o samba e vice versa. Mas apontar sujeitos nessa história toda não é pra qualquer um. Como foi o processo de estudo e pesquisa do documentário?

Isso tem acontecido de forma empírica mesmo, a medida que vou entrevistando os estudiosos, músicos e entusiastas vou tendo mais informações e diretrizes para o filme. Eu não era um amante do Jazz, me tornei depois que comecei a produzir esse documentário. É impressionante começar a entender como esse gênero influenciou não só a Bossa Nova, mas a maioria dos gêneros musicais que se vê hoje inclusive no “mainstream”.

Não é de hoje que a música brasileira é venerada no exterior. Desde o advento do “Orfeu Negro”, filme que em 1960 ganhou entre outros prêmios o Oscar, que o samba misturado com a harmonia do jazz conquistou o mundo. Trazido para Nova Iorque por figuras públicas do jazz como Stan Getz e Charlie Byrd, o ritmo foi empacotado e distribuído mundo a fora como a nova sensação do momento, posteriormente gravada até por Elvis Presley e Frank Sinatra, as duas figuras mais poderosas do showbiz daquela época.

Aqui pelo Brasil artistas da “Nova Bossa” como Roberto Menescal, Carlos Lyra e Nara Leão seguiam fazendo sua música sem muito conhecimento do que estava acontecendo lá fora. Menescal conta em sua entrevista que quando chegou em Nova Iorque, deu de cara com grandes nomes do Jazz, como Gerry Mulligan, Canobal Adams, entre outros. Feliz com a “coincidência”, foi descobrir que todos estavam à sua espera, pois a versão instrumental de “Desafinado” já havia estourado por lá e todos queriam conhecer os autores desse novo ritmo, que fascinou os músicos desacostumados com tamanha “malemolência”.

O filme “Do Jazz ao Samba” vai mostrar esse processo de “exportação” da música brasileira desde Carmem Miranda, passando por Ari Barroso, Milton Nascimento, Ivan Lins, Chico Buarque até os dias de hoje, onde a música eletrônica, misturada com os clássicos do samba, lotam as pistas de dança na Europa e em todo planeta.

Nomes como Ivan Lins, Elza Soares, Marcos Valle, Diogo Nogueira, Haroldo Costa, Léo Gandelman, Tárik de Souza e Roberto Menescal já deram seus depoimentos. Também foram entrevistados artistas da nova geração, como Moyseis Marques, que participou do ressurgimento da Lapa como pólo cultural do Brasil, Marcel Powell, filho de Baden Powell e Mariana de Moraes, neta do grande Vinícius de Moraes.

O filme contará também com músicos internacionais como Will.I.Am, integrante do grupo Black Eye Peas, Jay Kay, do Jamiroquai e a cantora Norah Jones, além de outros artistas e músicos que foram influenciados e são declaradamente apaixonados pela música brasileira.

Músicos como Mike Ryan, completamente apaixonado pelo “Samba Jazz” e pelo jeito brasileiro de ser. Mike é trompetista, etnomusicólogo e compositor de samba/jazz/fusion desde o início da década de 70, já tendo tocado na Austrália, África do Sul e Brasil, onde mora há 15 anos. Aqui sua paixão virou negócio. Mike abriu uma casa de jazz na Lapa, o TriBoz, onde recebe artistas brasileiros e estrangeiros toda semana. Ele ainda é autor do livro "SALF: Samba Brasil World Music", editado por Almir Chediak, trabalho muito conceituado sobre os ritmos e estilos que foram influenciados pelo samba, como o samba-jazz, o samba-funk e o samba-reggae.

Podemos dividir a história em Nova Iorque e Rio de Janeiro. Quais as maiores diferenças em produzir em cada local e qual o ponto que une esses dois extremos?

Em Nova Iorque foi mais difícil, tive a ajuda de alguns amigos que se engajaram no processo como Sara Moreira, que me ajudou muito na produção, já que ela mora lá e já conhecia os locais e pessoas a procurar. No Brasil foi mais fácil, porque resido aqui e já trabalho com cultura e tv a algum tempo, então fluiu mais.

Trabalhar com cinema no Brasil é um tanto complicado. Tirando o lado financeiro, qual o maior desafio?

A parte de leis de incentivo e editais acredito que seja o mais complicado, depois de captação de verba. Os mecanismos são um trabalhosos, são muitos documentos, orçamentos. Requer muito trabalho e tempo somente para se conseguir aprovação nas leis e nos editais então, nem se fala.

Levantar dinheiro pra finalizar o doc acredito que seja a parte mais delicada de todo o processo. E é onde você está focado no momento. A opção foi o crowd funding, que é o financiamento coletivo. Já vi vários casos de sucesso mas vários fracassos também. Existe um plano B caso não consiga o financiamento total? O doc corre o risco de não sair?

O filme, assim como outros filmes do cinema brasileiro, sofre com a falta de patrocínio. Eu estou investindo do meu bolso desde o início das filmagens, mas cheguei num ponto onde preciso de verba para continuar. O processo de edição, finalização, mixagem e masterização é um processo caro. Fora os custos de aquisição de direitos para utilização dos fonogramas e material de arquivo no filme. Dependendo do que seja necessário, fica inviável sem apoio financeiro. Já recebemos propostas de exibição na Holanda, China, Canadá, Estados Unidos e Índia mesmo antes do filme ficar pronto, somente pela divulgação do trailer provisório em inglês através da internet. Pediram que mandasse o filme quando ficar pronto para avaliação. Por isso estamos correndo!

Uma solução que encontrei foi o novo sistema de financiamento já muito utilizado fora do Brasil chamado “Crowd Funding”, ou financiamento coletivo. Nesse sistema, amantes do samba, jazz e bossa nova poderão colaborar com qualquer quantia para que o filme fique pronto. São contribuições pelo cartão de crédito, com valores que correspondem a prêmios como o nome nos créditos finais como agradecimento especial, vagas em oficinas de cinema e até a aparição no filme como figurante e participação na equipe de filmagens e na edição.

Sites como Kickstarter e RocketHub já movimentam milhares de dólares em projetos de filmes, produção de Cd’s e até shows musicais. Um dos maiores exemplos de financiamento coletivo é o do filme "Blue like jazz", que tinha como meta arrecadar US$ 125 mil e recebeu US$346 mil de 4.495 americanos. As filmagens já começaram e o filme deve ser lançado ainda esse ano. Para quem quiser participar, o documentário “Do Jazz ao Samba” está em parceria com o site Incentivador.com.

O caminho mais comum para o financiamento é a busca de editais de incentivo como a lei do audiovisual. Essa opção já foi estudada? Como você avalia essas políticas?

Estamos inscrevendo o filme nas leis de incentivo e nos editais, pois não temos como driblar esses mecanismos. Mas estamos também recorrendo ao “Crowd Funding” paralelamente. O “CrowdFunding” está começando no Brasil. Acredito que em pouco tempo já poderemos ter um mecanismo de financiamento paralelo as empresas privadas ou estatais.

Com certeza esse modelo de financiamento é uma alternativa poderosa aos mecanismos atuais de incentivo, porque coloca o poder na mão do povo, é ele quem irá decidir se um projeto é valido e tem peso para ser viabilizado ou não. Mas para isso precisamos iniciar uma cultura de “CrowdFunding” assim como acontece nos Estados Unidos e em outros lugares do mundo. As pessoas tem que participar, por que no mundo da internet, se muitos colaborarem com um pouquinho cada teremos um montante capaz de viabilizar muita coisa boa que vem por aí.

O diretor estreante passa por uma série de dificuldades, quando se trata do mercado audiovisual. Já estou a alguns anos tentando alavancar projetos sem muito sucesso na área de cinema. Acho que isso está evoluindo com o recente “boom” do cinema nacional. Porém no meu caso, arregacei as mangas, adquiri o equipamento necessário, com muito suor, e comecei a fazer. A partir daí as coisas foram acontecendo, desisti de esperar. Hoje qualquer pessoa com um celular pode produzir um documentário. Só depende dela, as ferramentas estão acessíveis, a qualidade está no conteúdo e na linguagem.

Conte um caso notável que aconteceu durante as filmagens.

O que mais me chamou atenção nas filmagens foi o amor e o respeito que o artista estrangeiro tem pela música brasileira. Acho até que eles respeitam mais a nossa música do que nós brasileiros no geral. O Marcel Powell, filho do Baden Powell, contou em sua entrevista que seu pai no japão foi abordado por um artista japones, que queria mostrar-lhe uma música. Ele tocou exatamente como Baden Powell tocava, inclusive suas respirações e movimentos. Mas daquela gravação específica feita a 10 anos atrás. Ele passou 10 anos treinando exatamente como Baden fez no disco e fechando o olho, era o Baden tocando, da forma que foi gravada. Isso é um respeito e uma admiração enorme pela nossa música.

Deixe uma mensagem para os que querem ver o doc finalizado.

O filme “Do Jazz ao Samba” não será somente um filme sobre a relação entre esses dois gêneros musicais, mas uma homenagem ao jazz e ao samba, que tanto contribuíram para a música que temos hoje, e aos amantes da boa música que irão encontrar nesse filme momentos memoráveis com grandes artistas brasileiros e internacionais. O documentário “Do Jazz ao Samba” irá colocar a música brasileira no lugar que merece, nivelado com os grandes gêneros musicais do planeta.



1 Musicólatras Comentaram:

Rafhael Vaz disse...

Ótimo post!!

Abraço!