terça-feira, maio 03, 2011

Clássicos do Jazz: Herbie Hancock


Identidade

• Nome: Herbet Jeffrey Hancock
• Nascimento: 12 de Abril de 1940
• Local: Chicago, EUA.
• Instrumentos: Piano e Teclados
• Estilos principais: Hard Bop, modal, free, jazz-rock, jazz-funk, fusion.


Introdução:

Só quem passou o ano de 1964 fora deste planeta, ou recluso em um mosteiro, não ouviu Cantaloop (Flip Fantasia), o sucesso da banda inglesa de jazz-rap US3, que até hoje continua a ser executado nas rádios. Muitos não sabem que essa gravação é um remix de Cantaloup Island, composição de Herbie Hancock. O piano ouvido na versão do US3, misturado a efeitos eletrônicos e vocais falados ao estilo do rap, foi sampleado da gravação original de Hancock, em 1964, para a gravadora Blue Note.

Raros músicos de jazz conquistaram tamanha popularidade, na segunda metade do século 20, como Herbie Hancock. Além de atuar como pianista e compositor do cultuado quinteto de Miles Davis, um dos grupos mais inventivos desse gênero nos anos 60, já a frente de suas bandas Hancock frequentou com assiduidade as paradas de sucessos durante as décadas de 70 e 80.

A mente aberta desse musico norte-americano permitiu que ele cultivasse, ao longo de cinco décadas, diversos estilos jazzísticos: do vigor do hard bop ao experimentalismo do jazz de vanguarda, além de diversas fusões com outros gêneros musicais, como o gospel, o rock, o funk, o pop ou até a musica brasileira. Livre de preconceitos, sua eclética concepção musical o levou a alternar períodos dedicados ao jazz acústico com projetos calcados em recursos e instrumentos eletrônicos – ferramentas das quais se tornou um assumido entusiasta ainda nos anos 60.

“Fico feliz ao ver esses garotos sampleando minha musica e agradando as pessoas com isso. Eu também adoro fazer as pessoas dançarem, suarem e se divertirem”, disse ele, em 1994, referindo-se a redescoberta de sua Cantaloup Island, pelo grande publico, três décadas depois de grava-la pela primeira vez.

Talvez a melhor imagem para expressar a contribuição desse influente compositor e instrumentista, no cenário do jazz das ultimas décadas, seja justamente a de Chameleon, o dançante megassucesso que ele compôs e gravou com sua banda The Headhunters, em 1973. Como um inquieto camaleão, Hancock tem seguido seus impulsos, revestindo sua musica eclética, de tempos em tempos, com novas cores sonoras. Quem melhor do que ele para isso?

Pianista-prodigio

Filho de músicos amadores, Hancock começou a frequentar aulas de piano aos 7 anos, orientado pela organista da igreja batista que sua família frequentava, em Chicago. Até entrar na adolescência, jamais imaginou que seu futuro musical poderia estar ligado ao universo do jazz. Costumava mudar de emissora ao ouvir no radio qualquer musica que se parecesse com jazz – gênero musical que, para ele, seria indicado exclusivamente aos adultos.

Com muita facilidade para ler musica, aos 11 anos Hancock chegou a tocar o primeiro movimento do Concerto para Piano em Ré Menor, de Mozart, em um concerto de músicos jovens com a Orquestra Sinfônica de Chicago. Até essa época seu repertório limitava-se a peças de Chopin, Mendelssohn e outros autores da musica clássica. Mesmo fora das aulas, o pianista só tocava o que lia nas partituras, religiosamente. Improvisar? Nem pensar.

Dois anos mais tarde, ao ouvir um trio de jazz formado por colegas de escola, sua maneira de encarar o jazz começou a mudar. Foi do também adolescente Don Goldberg, o pianista do grupo, que Hancock recebeu as primeiras dicas de como tocar blues. Graças também a esses colegas, conheceu gravações de George Shearing e Erroll Gamer, que abriram seus ouvidos para um novo universo musical. Antes mesmo de concluir o colégio, Hancock começou a acompanhar a cena jazzística de Chicago, frequentando jam sessions. Assim conheceu pianistas locais, como Billy Wallace e Muhal Richard Abrams, que também lhe deram dicas valiosas.

Ao concluir o segundo grau, em 1956, o interesse por tecnologia estimulou Hancock a se matricular na faculdade de engenharia eletrônica, no Grinnell College, em Iowa. Porém, depois de frequentar alguns meses de aulas, a paixão pelo jazz falou mais alto. Decidido a se aprofundar mais em composição e arranjo, pediu transferência para a faculdade de música, a qual cursou por quatro anos, mas não chegou a concluir – só obteve o diploma 17 anos depois, na UCLA, em Los Angeles.

O lugar certo, no momento certo

De volta a Chicago, em 1960, o jovem pianista começou a chamar a atenção, dando canjas ou se apresentando nos clubes de jazz da região. Ainda sob a influência de Bill Evans, maior referencia em seus anos de formação musical, Hancock já começava a exibir personalidade própria nos improvisos. No final daquele ano, foi convocado as presas para substituir Duke Pearson, no quinteto do trompetista Donald Byrd, que o convidou a seguir com o grupo para Nova York.

Era o lugar certo, no momento certo. Logo Hancock já estava participando de sua primeira sessão de gravação profissional. Out of This World (selo Warwick), um álbum do saxofonista Pepper Adams, seu parceiro no quinteto de Donaldo Byrd.

Tocar com Byrd abriu de vez as portas do mercado fonográfico para Hancock. Depois de participar das gravações de três álbuns do trompetista, Chant (que permanece inédito até 1979), Royal Flush e Free Form, todos pela Blue Note, finalmente em dezembro de 1961, recebeu o convite de Alfred Lion a gravar seu álbum de estreia, como líder.

Nada mais justo. Àquela altura já começava a se formar um consenso entre os aficionados o jazz que tinham tido a chance de ouvi-lo tocar. O estilo daquele talentoso pianista de Chicago combinava o romantismo de Bill Evans, a energia de Bud Powell, a flutuação rítmica de Wynton Kelly e o sabor funky de Horace Silver.

O som da Blue Note

No início dos anos 60, o selo Blue Note já tinha se tornado praticamente um sinônimo de jazz de ponta. Além de possuir um padrão de alta qualidade sonora para seus discos, a pequena gravadora fundada por Alfred Lion, em 1939, oferecia condições e o ambiente propício para que expoentes desse gênero musical, como Thelonious Monk, Art Blakey, Horace Silver, Lee Morgan, Sonny Rollins e Jimmy Smith, entre dezenas de outros, registrassem algumas de suas melhores gravações.

Alemão de origem judaica, Lion se mudou para Nova York, em 1938, fugindo da expansão do nazismo. Teve a ideia de começar a gravar discos quando assistiu, deslumbrado, a uma apresentação dos pianistas Albert Ammons e Meade Lux Lewis, no Carnegie Hall. Semanas depois, a convite de Lion, os dois mestres do boogie-woogie entraram em um modesto estúdio nova-iorquino para gravar seus improvisos e composições. Acostumados ao jogo-duro das gravadoras da época, os pianistas se surpreenderam ao serem recebidos com bebidas e boa comida. Retribuíram a acolhida com performances admiráveis.

Graças a essa gravação, a Blue Note já estreou no mercado do disco com resenhas bastante positivas, que atraíram a atenção de apreciadores do gênero. Lion sabia exatamente o que queria. Semanas depois distribuiu à imprensa e aos clientes um folheto que delineava o conceito do selo: “Os discos da Blue Note estão preocupados em identificar impulsos (do jazz), não seus adornos comerciais ou sensacionalistas”. Mais um ponto a favor do selo entre os aficionados.

Ainda em 1939, a chegada de Francis Wolff – amigo de infância de Lion, que se tornou seu sócio – reforçou a equipe de comando da Blue Note. Excelente fotografo, Wolff passou a registrar todas as seções de gravação, captando com sensibilidade as expressões dos músicos e o ambiente do estúdio. Essas fotos foram essenciais para que os artistas gráficos Gil Melle, Paul Bacon e John Hermansader pudessem criar capas modernas e inovadoras – trabalho aprimorado com brilho especial, já nos anos 60, pelo designer Reid Miles.

Outra figura essencial para o crescente prestígio do selo foi Rudy Van Gelder, talvez o mais famoso engenheiro de som da história do jazz, que entrou na equipe em 1953. Graças à experiência e ao perfeccionismo de Van Gelder, as gravações da Note atingiram um padrão sonoro – o chamado “Blue Note sound”, cultuado até hoje pelos apreciadores desse gênero.

No quinteto de Miles

O titulo Takin’ Off (decolando) foi bem apropriado. Em seu álbum de estreia pela Blue Note, aos 22 anos, Herbie Hancock demonstrou que já tinha talento e consistência musical para altos vôos. Qualquer veterano adoraria ter escrito um tema como Watermelon Man, contagiante composição inspirada em ritmos da musica gospel que se tornou bastante popular nos meios do jazz, especialmente após a versão gravada pelo percussionista cubano Mongo Satamaria, um ano mais tarde.

Para garantir que sua aposta em Hancock seria vitoriosa, o produtor Alfred Lion convocou dois figurões de seu elenco para acompanha-lo nas gravações: o já veterano saxofonista Dexter Gordon, expoente da geração do bebop, e o trompetista Freddie Hubbard, que se tornou um parceiro frequente do pianista em épocas posteriores.

Em março de 1963, Hancock retorno ao estúdio da Blue Note para gravar My Point of View, seu segundo álbum. Dessa vez, no sexteto escolhido para acompanha-lo estava Tony Williams, inventivo baterista de inacreditáveis 17 anos, que tinha acabado de ingressar na nova banda de Miles Davis. Dois meses mais tarde, ao saber que o trompetista estava à procura de um novo pianista, Williams não pensou duas vezes: indicou o parceiro.

Durante os cinco anos seguintes, Hancock integrou o Miles Davis Quintet, ao lado de Williams, do saxofonista Wayne Shorter e do contrabaixista Ron Carter. Com eles participou ativamente da criação dos cultuados álbuns E.S.P, Miles Smiles, Sorcerer e Nefertiti, inclusive com composições de sua autoria. Hoje há quase um consenso entre os especialistas que essa formação resultou no melhor grupo de jazz dos anos 60.

Hancock gravou outros quatro álbuns pela Blue Note enquanto fez parte do quinteto de Davis: Inventions and Dimensions (1963), Empyrea Isles (1964), Maiden Voyage (1965) e Speak Like a Child (1968), todos eles também bastante elogiados pela critica. Nesses trabalhos consolidou-se como autor de composições originais e sofisticadas, como Cantaloupe Island, Maiden Voyage ou Dolphin Dance, que se tornaram clássicos do repertório do jazz moderno.

Pouco depois de deixar o grupo de Davis, gravou seu sétimo e ultimo álbum pela Blue Note: The Prisoner (1969), um ambicioso tributo ao líder negro norte-americano Martin Luther King.

Compondo para o cinema

Já desfrutando de seu crescente prestígio nos meios musicais, Hancock encarou, em 1966, a oportunidade de inaugurar outra vertente em sua obra: a de autor de trilhas sonoras para o cinema. Essa estreia se deu com o filme Blow-up, obra-prima do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, inspirada em um conto do argentino Julio Cortazar, que foi filmada na Inglaterra.

As aparições das bandas britânicas de rock Yardbirds e Tomorrow, no elenco dessa trilha, não aconteceu por acaso. Hancock se aproximou da musica pop, nas composições que escreveu para esse filme, de maneiras jamais ouvidas antes em sua obra. Três anos mais tarde, estimulado pelas experiências eletrônicas ao lado de Miles Davis, Hancock compôs a trilha sonora de Fat Albert Rotunda, desenho animado escrito pelo comediante Bill Crosby, que marcou de forma definitiva o ingresso do tecladista no terreno das fusões do jazz com o rock e o rhythm & blues.

Mas o trabalho cinematográfico de Hancock que muitos fãs do jazz ou mesmo músicos do gênero, costumaram indicar como favorito é a trilha de Round Midnight (1986), do diretor francês Bertrand Tavenier, talvez a obra que tratou com mais sensibilidade à figura do músico de jazz no cinema. Para Hancock, que também desempenhou um pequeno papel na tela, esse trabalho trouxe a oportunidade de tocar novamente com o veterano saxofonista Dexter Godon, protagonista do filme, além de reencontrar os ex-parceiros Wayne Shorter, Ron Carter, Tony Williams, Freddie Hubbard e Billy Higgins, entre outros.

Do acústico ao eletrônico

Se, durante os anos 60, Herbie Hancock praticamente só recebia elogios por seu admirável talento como pianista e compositor, a partir da década seguinte começou a enfrentar reações negativas a seus projetos eletrônicos. Não foram poucos os críticos e fãs mais puristas que o acusaram de ter se “vendido” à música comercial. Isso se deu especialmente depois que seu álbum Head Hunters chegou ao 13º lugar na parada pop da Billboard, em 1973, rompendo a marca de um milhão de copias vendidas graças ao hit Chameleon – um típico funk inspirado em Sly Stone e James Brown, repleto de teclados e efeitos eletrônicos.

Qualquer semelhança com as criticas dirigidas a Miles Davis, quando este começou a experimentar fusões entre o jazz e o rock quatro anos antes, nos álbuns In a Silent Way e Bitches Brew, não é mera coincidência. Mentor das primeiras incursões eletrônicas de Hancock, Davis também incentivou a trocar o piano acústico pelo elétrico Fender Rhodes, na época em que ainda tocavam juntos.

Ironicamente, quando se via obrigado a responder à acusação de ter abandonado “o verdadeiro jazz”, Hancock não chegava a negá-la. Admitia que as fusões que estava desenvolvendo tinham mais a ver com a dance music do que com o jazz que fizera durante os anos 60. E dizia que sua intenção, naquele momento era fazer musica divertida para dançar, que também fosse agradável para ouvir. Na mesma linha eletrônica e dançante, uma década depois, sua composição Rockit, lançada no álbum Future Shock (1983), o levou de volta às paradas de musica pop, tornando-se um clássico na programação da MTV.

Ainda assim, qualquer critico de plantão que se dê ao trabalho de revisar a obra musical de Hancock durante as ultimas décadas terá que admitir que ele não deixou de se dedicar também, em alguns períodos, ao jazz acústico. Fez isso na segunda metade dos anos 70, quando se reuniu novamente com Wayne Shorter, Ron Carter e Tony Williams, no festejado grupo VSOP. Voltou a se juntar com eles, em 1992, para uma vibrante homenagem a Miles Davis, no álbum “A Tribute to Miles”.

Em 1998, ele surpreendeu fãs e críticos com o álbum Gershwin’s World, elegante projeto dedicado ao centenário do compositor norte-americano, cujo elenco eclético incluiu a soprano Kathleen Battle, um grupo de musica de câmera e os cantores pop Stevie Wonder e Joni Mitchell, com a qual já tinha gravado um tributo ao jazzista Charles Mingus, no final dos anos 70.

Vale lembrar as diversas participais de Hancock em shows e discos de músicas brasileiras, desde anos 80, ao lado de Tom Jobim, Milton Nascimento, Gal Costa e Dori Caymmi, entre outros. Ou de sua inusitada parceria com o percussionista africano Foday Musa Suso, em 1985.

Por essas e outras, quando declarou ao jornal The New York Times, à época do lançamento do álbum Gershwin’s World, que queria usar sua influência artística para incentivar o multiculturismo, Hancock mandou, de certo modo, um recado àqueles que não aceitavam ou não entendiam sua visão artística: iria continuar cultivando a diversidade e a diversão em sua música.

Já nessa década, ele voltou a testar os limites do jazz com o pop. No álbum Possibilities (2005) experimentou parcerias com um megaelenco de astros do gênero, como Stevie Wonder, Santana, Paul Simon, Sting, Joss Stone e Angélique Kidjo. Seu novo álbum River: The Joni Letters (2007), é centrado na obra de Joni Mitchell, sua antiga parceria. Contou com participações de Tina Tuner, Norah Jones, Luciana Souza e Corinne Bailey Rae. Na música de Hancock, fronteiras estão ai para serem rompidas.

Frases

“O jazz é a música que expressa o melhor do espírito humano. Tem a ver com a ideia de compartilhar, não com a de competir. Jazz tem a ver com trabalho em grupo” (Herbie Hancock, em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2006).

“Quero fazer tudo que for possível para me tornar uma força de incentivo pelo multiculturismo” (Hancock, em entrevista ao The New York Times, em 1998).

Fonte: Coleção Folha - Clássicos do Jazz: Herbie Hancock (Volume 2)



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