segunda-feira, abril 18, 2011

Introdução: Jazz para todos

Foto: Miles Davis

Olá Músicolatras

Quero compartilhar com vocês um texto excelente do Carlos Calado, retirado de um livreto da coleção Folha Clássicos do Jazz. É apenas um apertivo e que servirá como introdução do que está por vir. Amanhã irei fazer um post, explicando sobre uma ideia que eu tive e que pretendo por em prática, não é nada demais, mas creio que irá ajudar muitos iniciantes a entender ainda mais o universo de jazz, além de ser uma fonte de pesquisa riquissima. Enquanto isso gostaria de pedir que você lesse o texto abaixo, eu achei simplesmente genial, principalmente pela clareza com a qual ele foi escrito.

Por Carlos Calado

Se você é um daqueles que ainda encaram o jazz como um gênero difícil de assimilar, é bem provável que comece a mudar de opinião ao escutar alguns Cds inclusos nessa coleção. Não se espante se, depois de apreciar algumas gravações de Louis Armstrong, Charlie Parker, Art Blakey, Ella Fitzgerald ou Chet Baker, entre outros, você perceber que a aparente dificuldade de penetrar no universo do jazz deixou de assusta-lo.

Ninguém precisa fazer parte de um seleto clube de iniciados, nem saber ler partituras, para curtir a música de um Nat King Cole ou de um Herbie Hancock. O jazz é acessível a qualquer um que, simplesmente, goste de música e tenha abertura e curiosidade suficientes para ampliar seu conhecimento. Claro que alguns dos diversos estilos do jazz são mais complexos do que os gêneros musicais que costumamos ouvir diariamente nas rádios, como o pop ou o rock, mas a maior parte do repertório do jazz é bastante acessível a qualquer ouvinte.

O trompetista norte-americano Wynton Marsalis e seu irmão saxofonista Branford, dois dos músicos de jazz mais badalados nos anos 80 e 90, nunca esconderam em suas entrevistas que preferiam ouvir funk ou rock quando ainda eram adolescentes. Apesar de pertencerem a uma tradicional família de músicos de Nova Orleans e de terem crescido ouvido jazz com frequência, eles resistiam, inicialmente, a assistir concertos de jazzistas. Como outros garotos e jovens de sua geração, na década de 70, os irmão Marsalis sentiam falta do apelo visual da dança ou mesmo das letras das canções tão comuns nos shows de musica pop.

Wynton conta que essa dificuldade inicial se rompeu por volta de seus 12 anos. Um dia, ao ouvir o saxofonista John Coltrane tocar “Cousin Mary” (composição que faz parte do influente álbum Giant Steps, gravado em 1959), sentiu algo parecido com uma revelação. Foi como se ele tivesse obtido o código para abrir um cofre com um segredo valioso. No texto de apresentação desse disco, em depoimento ao jornalista Nat Hentoff, Coltrane explica que o titulo da música referia-se a sua prima Mary, “uma pessoa muito simples, amistosa e alegre”, cujo modo de ser ele tentou descrever por meio dessa composição. Por isso, Coltrane optou pela simplicidade da estrutura harmônica de um blues tocado em ritmo animado.

Claro que esse tipo de experiência é subjetiva, pessoal. Outros poderão escutar essa mesma gravação do Coltrane sem sentirem nada de especial. Mas são comuns os relatos, tanto de músicos como de simples ouvintes, de que se apaixonaram pelo jazz ainda na adolescência, ao ouvirem um improviso bem-humorado de Louis Armstrong, uma balada romântica de Duke Ellington, uma canção interpretada com amargura por Billie Holiday ou um álbum do sempre elegante Miles Davis.

Em geral, a dificuldade sentida por quem ainda não se familiarizou com o jazz surge nos momentos de improviso – o elemento que mais diferencia esse gênero musical dos outros. Também a pouco de improvisação no blues, no soul, no rock ou mesmo na musica erudita, mas em nenhum desses gêneros o uso da improvisação é tão extenso e essencial como no jazz. Os jazzistas criam grane parte de sua música utilizando a improvisação, que nada mais é do que um método de composição instantânea, de criação no ato. É ela que faz do jazz uma arte meio imprevisível, em continuo processo de criação e recriação.

Mesmo que você não saiba distinguir um acorde maior de um acorde menos, ou jamais tenha aprendido a tocar um instrumento musical, pode acompanhar improvisos de um grupo de jazz, tanto em gravações como em concertos, sem dificuldade. O espirito da coisa está em pensar no jazz como uma linguagem semelhante à utilizada pelos seres humanos se comunicarem entre si.

A relação entre os músicos de um grupo de jazz é, de certo modo, similar a um de bate-papo entre amigos. Na hora de improvisar, o jazzista pode – por meio de notas musicais, dos acentos rítmicos e inflexões sonoras ao tocar o instrumento – contar um caso, trocar ideias ou até mesmo discutir com os parceiros. Essa linguagem é praticada por todos, mas a personalidade de cada instrumentista, suas emoções no momento, seu sotaque e vocabulário pessoal, assim como as respostas e intervenções dos parceiros contribuem diretamente para que cada improviso seja único, diferente dos outros.

O fato de a maioria dos jazzistas não ter frequentado escolas ou conservatórios musicais, especialmente até meados do século passado, jamais os impediu de se comunicarem quando improvisam. Nos anos 30, quando perguntavam ao veterano saxofonista Lester Young qual era o segredo de seus elegantes improvisos, ele jamais escondia o mapa da mina: “Você precisa contar uma história”, ensinava. Essa capacidade de improvisar, de criar música na hora, sem recorrer a partituras ou a ensaios prévios, é, certamente uma das qualidades mais encantadoras do jazz.



2 Musicólatras Comentaram:

Edison Junior disse...

Ótimo texto, Daniel!

Daniel disse...

Realmente é um texto muito bom. O que eu mais gostei é a maneira como o autor esclarece as coisas e de alguma maneira tira do jazz esse mito de que um gênero dedicado a elite.

Amanhã vou fazer outra postagem, dai explicando a ideia que eu tive e que gostaria de compartilhar com o pessoal do musicolatras e os leitores.

Abraço
Daniel