terça-feira, abril 26, 2011

Clássicos do Jazz: Nat King Cole


Identidade

• Nome: Nathaniel Adams Coles
• Nascimento: 17 de Março de 1919
• Local: Montgomery, Alabama, EUA
• Morte: 15 de Fevereiro de 1965
• Instrumentos: Piano e Voz
• Estilos principais: Swing, pop


Entre o jazz e o pop

Os pianistas Art Tatum e Oscar Peterson, expoentes do jazz das décadas de 40 e 50, nem se preocuparam com a possibilidade de serem chamados de imitadores. Ficaram tão impressionados ao ouvir o original trio do pianista Nat King Cole que, tempos depois, começaram a tocar com formações semelhantes. Passado meio século, a influencia de Cole continua bem viva: interpretes em evidencia na cena atual do jazz, como a cantora e pianista canadense Diana Krall ou o guitarrista e cantor norte-americano John Pizzarelli, costumam reverencia-lo como grande fonte de inspiração musical. Ambos até já gravaram álbuns dedicados à obra desse mestre do swing.

Criador de um estilo elegante e leve ao piano, que agitou os meios jazzísticos dos anos 40, Cole praticamente mudou o enfoque de sua carreira, na década seguinte, tornando-se um dos cantores românticos mais populares daquela época. Mona Lisa, Nature Boy, Unforgettable, The Christmas Song e I Love You (For Sentimental Reasons) foram apenas alguns de seus sucessos que dominaram as rádios e o mercado fonográfico por duas décadas.

Ironicamente, essa enorme popularidade também rendeu a Cole alguns desgostos. Não foram poucos os fãs e críticos que se voltaram contra ele por ter trocado a sua cultuada fase jazzística pelo uscesso como a musica pop romântica. E, embora tivesse sentido na própria pele, diversas vezes, os efeitos da segregação racial vigente nos Estados Unidos, o cantor chegou a ser criticado por organizações negras que o acusaram injustamente de ser conivente com o preconceito.

Quatro décadas após a morte de Nat King Cole, o carisma desse influente pianista e cantor não dá sinais de enfraquecimento. Basta conferir o volumoso numero de reedições em CD ou DVD que tem chegado ao mercado internacional, nos últimos anos.

Musica do demônio

Nathaniel Coles tinha quatro anos quando sua família deixou o Alabama em direção ao norte do EUA. Em Chicago, seu pai, ex-açougueiro, realizou enfim o sonho de tornar-se pastor de uma igreja batista. A mãe, que assumiu a direção do coro, foi responsável pelo ensino dos primeiros rudimentos musicais aos quatro filhos. Nat, que desde cedo dedilhava melodias simples no piano da casa, gostava de fazer pose em frente ao radio. Com uma régua na mão, fingia que estava regendo uma orquestra.

O garoto só começou a ter aulas formais de piano ao s12 anos, com a mãe do futuro baixista Milt Hinton. Quando não precisavam dele no órgão da igreja, Nat se juntava ao coro para cantar. O reverendo Coles não gostava de ver seus filhos ouvindo ou tocando musica popular. Para ele, gêneros musicais profanos como o boogie-woogie, o blues ou o jazz, eram armadilhas do demônio.

Isso não impediu Nat de se apaixonar pelo jazz, especialmente pelo piano do grande Earl “Fatha” Hines, sua principal influencia musical. Parceiro habitual de Louis Armstrong, Hines tinha se radicado em Chicago, em 1923. As apresentações de sua banda, no salao de bailes Grand Terrace, eram transmitidas pela radio local com relativa frequência. Mas como o salão ficava próximo a casa da família Coles, sempre que podia Nat saída escondido para ouvir seu ídolo ao vivo, do beco ao lado do Grand Terrace.

A situação começou a ficar insustentável quando Nat, aos 16 anos, se tornou pianista do Solid Swingers. Foi com esse quinteto, liderado por Eddie, seu irmão mais velho, que Nat fez suas primeiras gravações. A sra. Coles teve que interferir para estabelecer um pacto entre pai e filho. Nat poderia sair a noite para tocar nos clubes desde que continuasse tocando órgão e cantando no coro da igreja, mas esse arranjo não durou muito.

No ano seguinte, em 1937, os irmãos Coles conseguiram emprego na banda do musical Shuffle Along. Ao fim da temporada em Chicago, Nat seguiu com o espetáculo para a Califórnia, interessado por uma bailarina do elenco. Embora ainda nem tivesse completado 18 anos, ele se casou com Nadine Robinson, no meio da turnê, em Michigan. Ao chegar em Los Angeles, finalmente decidiram ficar. Ali Nat poderia entrar no mercado musical pela porta da frente.

O trio do Rei

O talento do jovem pianista não demorou a chamar atenção. No inicio de 1938, já se apresentando no Century Club, em Los Angeles, Nat foi convidado para formar um quarteto para uma temporada no Sewanne Inn, um ponto de encontro de músicos locais. Como o baterista não apareceu, ele, o guitarrista Oscar Moore e o baixista Wesley Price começaram tocando em trio, uma formação inusitada para a época, que acabou agradando.

Foi o dono desse clube, Bob Lewis, que apelidou o pianista de King Cole (Rei Cole). E para deixar bem claro o sentido da alcunha, ainda pediu a ele que usasse uma coroa de papel dourado durante as apresentações. Assim nasceu o King Cole Trio, que virou sucesso instantâneo. Além do piano inovador do líder, a própria formação era novidade, numa época em que as big bands tinham praticamente tomado conta da cena do jazz. No inicio de 1941, o trio fez uma turnê nacional, finalizada em uma temporada pelos melhores clubes de Nova York, que durou meses. Já no ano seguinte, o baixista Johnny Miller assumiu o lugar de Wesley Price, convocado para defender o país, na Segunda Guerra Mundial.

Nat chegou a fazer algumas gravações com o trio, por diversos selos, mas o sucesso massivo veio mesmo após o contrato com a Capitol Records, em 1943. Straighten Up and Fly Right, tornou-se hit nacional no ano seguinte. Ironicamente, o sucesso dessa canção nao rendeu um centavo a Nat. Apesar de ser compositor, ele tinha vendido seus direitos autorais por apenas 50 dólares, anos antes. Um carola diria que foi castigo divino: Nat escreveu canções utilizando trechos dos sermões que o pai preparada para os fieis da sua igreja.

O que mais chamava a atenção no estilo de Nat, ao piano, era a leveza de seu toque, bem diferente das mãos pesadas e dos improvisos repletos de floreios dos pianistas do jazz tradicional. Também desenvolveu uma maneira mais moderna de acompanhar, usando acordes concisos e sincopados. Era assim que ele apoiava os solos dos parceiros, completado os ritmos e harmonias, técnica que se tornou conhecida como comping.

Os sucessos do King Cole Trio se seguiram, como Gee Baby, Ain’t I Good to You, (Get Your Kicks on) Route 66 ou I Love You (For Sentimental Reasons). Assim, as portas de Hollywood também se abriram para o trio, que começou a aparecer em vários filmes. Já em 1946, a gravação de The Christmas Song (do cantor Mel Tormé) trazia um evidente sinal de que o pianista começava, aos poucos, a trocar o jazz pelo pop. Essa foi a primeira gravação do trio acompanhado por um naipe de cordas.

Cantor Popular

Nat demonstrou resistência à ideia de cantar com seu trio pelo menos até meados dos anos 40. Quando falava sobre esse assunto, deixava claro que não se considerava um cantor especial. Mesmo na década de 50, quando já tinha se estabelecido como um dos cantores mais populares daquela época, em entrevistas, Nat chegava a criticar a extensão limitada de sua voz. Ao revelar sua surpresa ao ver que as pessoas realmente gostavam de sua voz rouba, dizia: “Essas pessoas enlouqueceram”.

Mas nem a extensão reduzida, nem o timbre levemente rouco o impediram de desenvolver um estilo único de cantar. A começar pelo timbre vocal bem particular, marcado pela negritude do gospel e do blues, gêneros musicais com os quais conviveu desde cedo. Avesso a arroubos dramáticos, Nat cantava com elegância, humor e muito suingue. Além disso, era o que se chamava, na época, de “um contador de histórias”: um interprete capaz de convencer qualquer um de que tudo o que dizia, naquelas canções românticas, era pura verdade.

Dizia a lenda, endossada em parte pela biografia Leslei Gourse, que Nat cantou pela primeira vez, num clube de Los Angeles, a contragosto, só para atender a um frequentador. Chegou a negar o pedido, mas o dono da casa pediu que ele cantasse, por se tratar de um cliente que costumava dar boas gorjetas. Como a versão vocal de Nat para Sweet Lorraine agradou, ele começou a cantar eventualmente.

Gourse também referenda, em sua biografia, a tese de que a guinada de Nat em direção a musica pop foi estimulada por sua segunda esposa, Maria Ellington, uma mulher dominadora e inteligente. Os dois começaram a se relacionar em 1964, justamente o ano em que Nat gravou The Christmas Song. Já nesse episodio a opnião de Maria foi decisiva para que ele aceitasse a ideia de gravar a canção com um naipe de cordas e orquestra, deixando seu trio de jazz de lado.

Gravações posteriores, como as de Nature Boy (1947), Mona Lisa (1949), Too Young e Unforgettable (1951), que também se tornaram sucessos estrondosos, foram delineando, ano a ano, a mutação musical de Nat: o cantor romântico foi assumindo, cada vez mais, o lugar do pianista de jazz. A dissolução do King Cole Trio, em 1965, não poderia ser mais simbólica.

Enfrentando Preconceitos

Para viver como um astro de Hollywood, Nat teve que pagar um preço bem mais alto do que a maioria de seus colegas. Não bastassem as alfinetadas e cobranças dos críticos que jamais deixaram de lamentar a mudança de rumo em sua carreira, ele ainda teve que enfrentar o preconceito racial, de várias formas. O fato de seus discos serem campeões de vendagem em todo o país não o livrou de sofrer a humilhação de ser impedido de morar, com a esposa, num bairro sofisticado de Los Angeles, em 1949. Os futuros vizinhos simplesmente se organizaram para barra-los.

Mais brando foi o caso de seu programa de TV, que estreou no canal NBC, em 1956. Nas noites de segunda-feira, Nat recebia convidados de grande popularidade, como os cantores Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Big Crosby e Harry Belafonte. Nem as criticas, todas bastantes favoráveis, ajudaram. Bancado por cerca de um ano pela emissora graças a boa audiência, o programa de Nat jamais conseguiu um patrocinador até ser cancelado. O fato de ser o primeiro programa em horário nobre da TV americana apresentado por um negro explica a falta de interessados.

Ainda em 1965, Nat fez uma turnê pelo país que passava pelos Texas, onde a segregação racial obrigava plateias a se dividirem: de um lado do auditório ficavam os brancos, o outro, os negros. Já na cidade de Birmigham, no Alabama, a regra segregacionista era outra: Nat teria que fazer dois shows: o primeiro só para os brancos, e o outro só para os negros. O primeiro show mal tinha começado quando cinco homens entraram no palco e agrediram o pianista. Como a policia demorou a intervir, Nat teve que lutar para se defender.

Não bastasse ter sido vitima de um ato de violência, posteriormente Nat foi criticado por militares negros por ter aceitado a segregação da plateia em seus shows. Ao responder que era um artista, não um policial, e que sentia que poderia contribuir para a causa dos direitos civis dos negros, cantando para plateias brancas, o pianista os irritou mais ainda. No bairro do Harlem, em Nova York, seus discos chegaram a ser removidos das jukeboxes de alguns bares e foram esmagados. Nat saiu mais ferido dessa polemica do que da agressão que sofreu em Birmingham.

Essência jazzística

Até morrer prematuramente, aos 45 anos, vitima de câncer no pulmão (só largava os cigarros para tocar piano), Nat conviveu com as queixas e criticas dos que não o perdoavam por abandonar o jazz. De fato, a partir do final dos anos 50, ainda forneceu mas munição para seus desafetos, gravando bobogens como Cachito, Coo Coo Roo Coo Coo Paloma ou Ay, Cosita Linda.

Mesmo assim, Nat jamais chegou a romper de vez com o jazz, algo que, dizia, jamais passaria por sua cabeça. Uma prova disso é o álbum Nat King Cole At the Sands, que acompanha esse volume da coleção. Gravado ao vivo, no Sands Hotel, em janeiro de 1960, ele registra uma performance especial do cantor e pianista à frente de uma big band.

Em meio ao repertorio recheado de standards românticos como I Wish You Love e You Leave Me Breathless, Nat esbanja swing, exibindo seu fraseado tipicamente jazzístico, no vocal de Joe Turner Blues. Já para aqueles que apreciam mais seu lado instrumental, ele desfila com seu piano elegante, interpretando Where or When, In a Mellow Tone e Whatcha’ Gonna Do. A música de Nat King Cole pode ter mudado bastante com os anos, mas sua essência foi, quase sempre, jazzística.

Frases

“Minha voz não é algo do que eu possa me orgulhar. Ela atinge, talvez, duas oitavas de extensão. Acho que é da rouquidão, do ruído da respiração, que alguns gostam” (Nat King Cole, em entrevista ao jornal The Saturday Evening Post, em 1954)

“Aqueles caras costumavam ler as mentes um do outro. Era inacreditável” (O pianista e líder de orquestra Count Basie, elogiando os integrantes do Nat King Cole Trio).

“Nat King Cole, juntamente com Billy Eckstine e Sammy Davis Jr., abriu uma trilha de sangue para músicos e artistas negros. Eles tornaram possível que artistas como Johnny Mathis, Lionel Richie, Stevie Wonder e Michael Jackson atingissem os pontos mais altos do mundo do entretenimento. Nos anos 40 e 50, as coisas eram realmente difíceis para os negros, e aqueles pioneiros tiveram que enfrentar muita coisa para chegar ao sucesso. Nat se apresentava em Las Vegas, em tempos que um artista negro fazia o show principal, no palco maior, e depois era obrigado a comer na cozinha”. (O maestro e produtor Quincy Jones, em 1990, por ocasião dos 25 anos da morte de Nat King Cole)

Curiosidades sobre Nat King Cole

Polêmica: Ao ler ou ouvir as frequentes criticas por ter trocado seu cultuado trio de jazz pela carreira de cantor de musica pop, Nat respondia: “Os críticos não compram discos. Eles os recebem de graça”.

Cigarros: Nat King Cole fumava, em media, três maços de cigarros por dia. E quanto mais fumou, mais sua voz foi ficando rouca. Vem daí a lenda, negada por sua filha Carole, de que ele fumaria tanto justamente para manter o seu timbre rouco. Segundo a biógra Leslie Gourse, que também não confirma essa versão, o cigarro era a forma escolhida pelo cantor para lidar com o stress. Mas, certamente contribuiu para encurtar sua vida.

Milagre digital: Em 1991, a voz de Nat King Cole voltou a frequentas as rádios. Graças à tecnologia digital, sua filha, Natalie Cole – que estreou como cantora aos 11 anos, ao lado do pai, num musical – gravou o sucesso Unforgettable, em duo com a antiga gravação do pai.


Fonte: Coleção Folha - Clássicos do Jazz: Nat King Cole (Volume 1)



3 Musicólatras Comentaram:

Edison Junior disse...

Nat King Cole é fantástico! Só não gosto muito da fase latina dele, embora tenha feito bastante sucesso por aqui na época (não, eu não era nascido ainda...)

Edison Junior disse...

Complementando meu comentário, sobre esse episódio da mansão que ele comprou em LA, um dia houve uma manifestação dos vizinhos em frente à sua casa. Cole saiu e perguntou o que estava havendo. Um dos vizinhos disse que eles não gostavam de ninguém estranho vivendo por ali, ao que ele respondeu: "eu também não, se souberem de algum por favor me avisem".
Tempos difíceis...

Daniel disse...

Apesar de já ter escutado as músicas dele da fase latina e até achar interessante ele cantando em espanhol, eu ainda prefiro ele cantando jazz e com o formação em trio mesmo, sem dúvida é muito melhor.

É sobre esse seu comentário, o Nat realmente passou por situações complicadas, como conta no livro, de ter que se apresentar para um publico dividido (negro/branco), até sair na porrada e esse fato com os vizinhos. Mais sem duvida essa resposta dele foi genial, já que nessa época desconhecido ele não era. Muito bom.