terça-feira, março 01, 2011

Imitar outros músicos ou ter o seu próprio estilo ?

Dias atrás comentei com o músico Mateus Starling sobre a ideia dele ser colaborador em meu blog e aqui no Musicólatras, tempos depois ele me mandou esse texto muito interessante e que eu gostaria de compartilhar com vocês. Para quem ainda não o conhece, ele é guitarrista, produtor, compositor, colunista e colaborador da revista Cover Guitarra. Formado pela conceituada Berkelee College of Music de Boston, com diploma em performance e recebeu a maior honra concedida pela faculdade (Summa Cum Laude). Em 2009 ele lançou o seu primeiro álbum solo, "Kairós". Suas influências musicais são o jazz, rock, fusion e música brasileira. Para conhecer melhor sobre a tragetória e o trabalho do Mateus, só visitar o site oficial, endereço se encontra no final da postagem.

Por Mateus Starling

Hoje quero falar de um assunto que palpita na idéia de qualquer músico que começa a ter uma intimidade maior com o instrumento que é a tênue linha que existe entre imitar outros músicos e ter o seu próprio estilo.

Imaginemos a possibilidade de visitar uma tribo indígena no meio da floresta Amazônia (ou qualquer outro lugar distante nesse mundo que você tenha conhecimento), uma tribo que jamais teve contato com o homem branco e pensemos, também, na possibilidade de presentearmos os silvícolas com guitarras, violões, baixos, baterias, peças de percussão, violinos e etc.

Novamente deixamos essa tribo isolada por mais 20 anos e depois voltamos para ver em que nível musical esses índios conseguiram chegar longe de qualquer contato com a civilização. Pode ter certeza que a decepção vai ser enorme e eu explico por que.

Certamente os índios usam a musica para se comunicar, não estou aqui entrando no mérito e na qualidade musical dos índios, alias com certeza eles dominam instrumentos que nós não dominamos e produzem musicas que nós não produzimos, mas o ponto em questão é que estamos dando instrumentos que foram desenvolvidos por nós e para as nossas necessidades musicais.

Dei uma volta para dizer o quão importante é a referencia musical em nossas vidas. Se hoje eu toco guitarra é porque um dia eu vi alguém tocando esse instrumento, e certamente isso é uma verdade para 99% dos guitarristas do globo terrestre.

Se eu hoje uso de uma técnica de guitarra chamada Bend é porque um dia eu tive essa referencia sonora em minha vida, ou seja, outras pessoas pagaram um preço por anos para desenvolverem técnicas, conceitos e caminhos musicais que nós hoje nos apropriamos em horas ou dias.

Se quisermos quebrar as regras é preciso antes conhecê-las, até porque ninguém pode romper de algo que não se tem conhecimento. Dessa maneira, é bem natural que comecemos a tocar imitando outros músicos. Existem pessoas que exageram e até copiam as atitudes fora do palco, roupas e etc. O fascínio por determinando instrumentista é um caminho natural para o aprendizado.

O mestre de hoje foi influenciado pelo mestre de ontem, e esse ciclo vai retrocedendo eternamente no tempo até chegar ao criador da música que a colocou dentro nós sem fazer distinção. Não existe um ser humano nesse mundo que não tenha a musica pulsando dentro de si, não existe um ser humano nesse mundo que não cante uma musica. Em qualquer lugar do mundo a musica esta presente, independentemente da cor, raça, religião ou condição social. A música é o dom mais democrático da humanidade.

Quando falamos de música falamos de uma forma de comunicação auditiva, tal como é a fala. Se hoje eu falo português fluente foi porque antes eu ouvi os meus pais falarem. Assim foi com todo humanidade, cada um seu contexto lingüístico. Muitas pessoas não entendem que a música funciona como um idioma, ou seja, a melhor maneira de se tocar música é ouvindo e repetindo.

A pior coisa do mundo é aprender um novo idioma com um livro na mão, porque antes da experiência sonora você esta tentando ter uma experiência visual. A musica não é diferente, ela não pode ser aprendida unicamente através de livros, antes ela precisa ser capitada pelo ouvido e reproduzida. Pode acreditar que muitas idéias são desenvolvidas quando tentamos copiar algo e tocamos da maneira aproximada e dessa maneira começamos a romper vagarosamente do que é de outro para trazer para o nosso mundo, para a nossa limitação e entendimento.

O grande problema não é copiar outros músicos, o problema é nunca conseguir romper com essa fina linha que existe entre a referência e a personalidade. A verdade é que poucas pessoas conseguem fazer isso com louvor.

Já disseram uma vez que é melhor soar como alguém do que não soar como ninguém, ou seja, não adianta tocar sem ter referencia e tocar algo que não tem nenhuma base no que já foi feito antes, em algum grau todo o musico precisa de uma pitada de alguém.

Grande abraço a todos e fiquem na paz.
Mateus Starling

Site Oficial: Mateus Starling



2 Musicólatras Comentaram:

Edison Junior disse...

O ato de imitar no início de carreira ou do aprendizado é natural, mas com o tempo cada músico deve buscar seu próprio caminho. Isso não quer dizer que ele tenha que romper com tudo, apenas que tem que buscar algo novo. Pouco realmente o conseguem.
Muito interessante o artigo, Aguardamos o próximo!

Daniel disse...

muito bem observado Edison. É isso ai, concordo.

Abraço