sexta-feira, janeiro 21, 2011

A guerra do jazz: Wolf Pack Band

Dave Brubeck - Wolf Pack Band

O Swing era o ritmo favorito dos americanos nos anos 30. O futuro pianista Dave Brubeck, nasceu em 1910, na California. Sua mãe queria que ele fosse pianista clássico e seu pai, fazendeiro, queria que o filho lhe seguisse os passos. Assim passou sua infância, cavalgando e tocando piano. “Meu sonho”, declarou ele mais tarde, “era que um dia o ônibus de Benny Goodman quisesse passar pelo meio do nosso gado e eu não o deixaria passar a menos que ele me deixasse entrar no ônibus e tocar um pouco com eles.”

Benny Goodman nunca apareceu por lá, mas seu pai finalmente cedeu. Assim, quando os EUA entraram na guerra, Brubeck estava se formando em música na faculdade. Alistou-se em 1942, mas embarcou para a Europa apenas em 1944. Ao invés de ir para a frente de batalha como queria foi escolhido para liderar uma banda do exército, e formou a Wolf Pack Band.

Havia muita segregação racial no exército americano. Até os suprimentos de sangue eram separados para os brancos e os negros, conforme a cor de seus doadores (!?). Mas a Wolf Pack Band de Brubeck era uma exceção. Seu mestre de cerimônias, Gil White, era negro, assim como o trombonista, Richard Flowers. Juntos estiveram bem próximos ao front, tendo uma vez se perdido atrás das linhas alemãs.

A Wolf Pack ficou no 3º Exército de Patton até o final da guerra. Quando retornaram aos EUA, fizeram uma escala no Texas e foram a um restaurante fazer uma refeição, mas não deixaram os músicos negros entrar. Um deles, em prantos, disse “veja pelo que passamos em nosso primeiro dia, não posso nem comer com vocês”, e completou “eu imagino se valeu a pena ter passado por tudo isso”.

Em todos os grupos que formou após a guerra, Brubeck se recusava a tocar em locais em que a audiência era segregada, tendo abandonado um show de televisão quando soube que o diretor estava orientando os câmeras para não filmar seu baixista Gene Wright, que era negro.

“O primeiro homem negro que eu vi”, declarou Brubeck anos depois, “era um amigo do meu pai, que tirou a camisa a pedido deste e me mostrou uma marca em seu peito. Era uma marca como as que se faz no gado. E meu pai me disse ‘Essas coisas não podem mais acontecer’. Essa é a razão e o objetivo da minha luta.”

Ouçam Bluette, do próprio Brubeck, um belíssimo tema, só para fugir um pouco do tradicional Take Five. A montagem do vídeo abaixo foi feita sobre quadros de Juan Miró, que inspiraram a capa de seu álbum Time Further Out.

Tá bom, concordo, não podíamos deixar de fora a genial Take Five.

Dave Brubeck Quartet, com Joe Morello (bateria), Eugene Wright (baixo) e Paul Desmond (saxofone)

É por esses e por outras que a homenagem mostrada abaixo, prestada em 2009 por ocasião de seu 89º aniversário, foi mais que justa. Imagino a emoção que ele deve ter sentido ao ver seus filhos no palco tocando.

Vi o vídeo acima pela primeira vez no blog Etc & Jazz.

Texto traduzido e adaptado de Jazz – A History of America’s Music, de Geoffrey C. Ward e Ken Burns


Leia os outros posts da série A guerra do jazz em:



1 Musicólatras Comentaram:

Marcello disse...

Edison,

Parabéns pelo post, como foi difícil a vida dos negros nos EUA, e hoje ainda existe um preconceito nos estados do sul,mas os americanos tem que engolir uma ironia do destino, e que prova a sabedoria de Deus, todos os seus astros na música, nos esportes são negros :

1)Miles Davis
2)Michael Jordan
3)Tiger Woods
4)Monk
5) Charlie Parker
6)Família Marsalis

Sem contar Martin Luther King um dos maiores ícones da paz nesse mundo.

Deus escreve certo por linhas tortas não é ?
Como bom espírita, abomino qualquer tipo de preconceito contra raças. Como imperfeito que sou tenho os meus preconceitos mas são contra atitudes, bem diferente não ?

Grande abraço e mais uma vez parabéns.