sexta-feira, dezembro 17, 2010

A Guerra do Jazz - Harlem Hellfighters

Harlem Hellfighters
A música sempre teve um posto importante nos exércitos, marcando o ritmo da marcha, orientando as tropas durante a batalha (em tempos pré-históricos da comunicação), elevando o ânimo da galera, entretendo os soldados e despertando-os pela manhã.

Na 2ª Guerra Mundial, principalmente, o jazz assumiu esse papel com brilhantismo. Muitos músicos se alistaram ou foram convocados para lutar na Europa e na Ásia. Porém, o primeiro contato do jazz com os campos de batalha ocorreu ainda na 1ª Guerra. As autoridades, os soldados e os marinheiros e franceses que estavam no porto para receber a primeira leva de soldados americanos, demoraram vários compassos até perceber que a música que estava sendo tocada pela banda do exército ianque era o Hino Nacional Francês, a Marselhesa. Nem o fato de todos os soldados serem negros diminuiu o choque que a nova música proporciou.
 
E o termo 'nova música' é bem aplicado nesse caso. Apenas um mês antes dos EUA entrarem na guerra pra valer, em abril de 1917, é que foi gravada a primeira música intitulada de jazz de que se tem notícia, pela Original Dixieland Jazz Band, portanto, embora alguns americanos já conhececem o jazz, para os europeus era uma total novidade.
 

O maestro da banda do 369º Regimento de Infantaria (Harlem Hellfighters) era o Tenente James Reese Europe, ex-bandleader em Nova Iorque antes da guerra. Europe alistou-se menos por patriotismo do que por acreditar que um regimento negro seria útil para a imagem de sua raça. Ledo engano. Os casos de discriminação dentro do próprio exército eram enormes, os batalhões eram separados por raça e por religião, mas isso é outra história.

Os franceses não estavam nem aí para a cor deles. Adoraram a nova música. O músicos das bandas francesas e inglesas faziam questão de examinar os instrumentos dos Hellfighters para descobrir o que os fazia emitir sons tão diferentes dos deles. Na verdade, o que eles tocavam era mais um ragtime orquestrado que um jazz propriamente dito, e as improvisações não eram permitidas.

O 369º combateu por seis meses, provavelmente um dos regimentos que permaneceu mais tempo em combate. Muitos de seus soldados, que se auto-intitulavam "Homens de Bronze", receberam condecorações do exército americano e francês, sendo que dois deles receberam as primeiras duas Croix de Guerre com que os franceses distiguiram os americanos. Na volta aos EUA, participaram de várias paradas militares em homenagem aos combatentes.
 

Apesar da questão racial ainda perdurar por muitos anos nos EUA, o jornal Defensor, de Chicago, escreveu as seguintes palavras sobre James Europe:
 
"Por pior que seja algum inimigo de nossa Raça, ele não conseguirá conversar com Europe por algumas horas sem mudar seu ponto de vista (...) Os brancos estão acostumados a nos ver apenas como cozinheiros, carregadores e garçons (...) Europe e sua banda valem mais para a sua Raça do que mil discursos (...)
 
Pelo menos as bandas militares nunca mais seriam as mesmas.
 

Fontes: Site Blackpast e o livro Jazz, a History of America’s Music, de Geofrey C. Ward e Ken Burns



3 Musicólatras Comentaram:

Daniel disse...

Guerra é um assunto que eu gosto muito, principalmente filmes.

E há tempos percebo essa ligação. Vários músicos de jazz alistavam no exercíto na época da guerra e acabavam tocando nas bandas / orquestras. Inclusive no post do Chet Baker citei isso, que ele se alistou e tocou no exercíto.

E hoje mesmo estava assistindo o filme "Um Sinal de Esperança" com minha mãe e em uma parte o Jackob cita que na guerra o exercito era acompanhado por uma big band...dai o outro disse: Com o Benny Goodman ?

Achei o post interessante, aprendi muita coisa que não sabia. Uma aula de história..rs

Abraço

Edison Junior disse...

E vem mais por aí!

Marcello disse...

Edison,

Que baita post hein ?
Já conhecia a história dos batalhões negros desde a guerra civil americana, infelizmente sempre recheada de episódios racistas.

Mas eu como um bom negro, nasci branco por acidente, tenho muito orgulho desses homens que deram suas vidas à um país que não os respeitava como seres humanos.

Falando de batalhões negros, existiram na guerra civil como eu disse, na 1° e na 2° Guerra MUndial atuando principalmente na Itália.

Falando de jazz, esse ritmo conquistou a Europa e foi pra muitos instrumentistas a salvação em outras épocas, como Chet Baker gravando na Itália, França e Holanda, Miles Davis na França, entre outros.
Muitos músicos nem tão geniais mudaram-se pra Europa e conquistaram espaço liderando bandas de jazz.

Sensacional mesmo, quero te agradecer muito pelos seus comentários nos meus blogs.

Grande abraço.