sexta-feira, agosto 27, 2010

Uma breve história do jazz – Cool & Hard Bop

Até esse ponto da nossa breve história, o jazz sempre foi considerado uma música quente, hot, com um toque de “sujeira”. A própria palavra jazz deriva de jass ou jaz, que era uma gíria africana para a relação sexual. Na virada da década de 40 para 50, um grupo de músicos começou a mudar essa tendência e passou a tocar próximo ao limite da música clássica, levando o jazz a um nível de sofisticação nunca antes imaginado. Até os boppers, eles incluídos, os músicos sempre tocaram seguindo o espírito inicial do jazz: calor emocional, bravura, impureza musical. Isso mesmo, impureza.

O jazz cool buscava principalmente a pureza. Foi uma inversão total de muitos valores do jazz. Caiu a ditadura dos grandes grupos de instrumentos de sopro e os pequenos grupos com piano, baixo e bateria, complementado às vezes por vibrafone, guitarra e um ou outro instrumento, substituiram a base musical anterior. Essa nova forma de tocar passou a ter um apelo maior para os músicos brancos e um vento forte passou a soprar da costa oeste dos EUA, trazendo o som feito por um grupo de músicos, na maior parte brancos, que ficou conhecido como West Coast School.

A maior parte dos músicos do período cool é proveniente do bop, como Miles Davies (1926-1991), por exemplo. Outros nomes importantes são: Chet Baker (1929-1988), Ray Brown (1926-2002), Dave Brubeck (1920), Benny Carter (1907-2003), Paul Desmond (1924-1977), Herb Ellis (1921-2010), Bill Evans (1929-1980), Gil Evans (1929-1988), Stan Getz (1927-1911), Jim Hall (1930), Woody Herman (1913-1987), Mel Lewis (1929-1990), Joe Morello (1928), Gerry Mulligan (1927-1996), Gene Wright (1923) e Lester Young (1909-1959).

O que eu, particularmente, acho fantástico na década de 50, é que depois de tantas mudanças nos estilos, muitos dos músicos dos primeiros anos ainda estavam vivos, acompanhando a evolução e ainda tocando. Orquestras, como a de Duke Ellington (1899-1974) e Count Basie (1904-1984), ainda tocavam. Lester Young, por exemplo, que mesmo na época do swing já tocava num tom mais cool, quase relaxado, contribuiu imensamente para a formação do bop, sendo considerado por alguns estudiosos como um de seus maiores valores, e foi um dos maiores do cool jazz também.

Em 1950, Miles lançou o álbum Birth of the Cool, acompanhado por um pequeno grupo de boppers. Ainda era difícil traçar um linha divisória entre o bop e o cool. No final da década de 50, ele gravaria ainda o fantástico álbum Birth of The Blues.


O Modern Jazz Quartet figura também entre os primeiros grupos de cool jazz. Era formado por quatro músicos provenientes da orquestra de Dizzy Gillespie (1917-1993). O pianista John Lewis (1920-2001), o baterista Kenny Clarke (1914-1985), o vibrafonista Milt Jackson (1923-1999) e o baixista Ray Brown, substituído posteriormente por Percy Heath (1923-2005). Confirmando a aproximação do jazz com o clássico, o quarteto gravou Bach. Durou até 1974 e foi o único grupo de jazz a gravar pelo selo Apple, dos Beatles.

Nesse primeiro vídeo, curta It Don’t Mean a Thing, de Ellington, um clássico do swing em versão cool.


Pra quem não acreditou, aqui o MJQ toca uma Fuga, de Bach.


Chet Baker, além de tocar trompete, era também cantor, e cantava em um estilo muito peculiar, de maneira bem intimista. Mais ou menos o mesmo (e na mesma época) que fez o baiano João Gilberto (1931) no início da Bossa Nova. Aliás, dizem que João Gilberto tentava cantar como Chet. Bobagem, foram ambos originas a seu modo e geniais no que fizeram.


Outro grupo cool muito legal, com o perdão do trocadilho multilíngue, foi o Dave Brubeck Quartet, do qual fazia parte o sax alto Paul Desmond. A música abaixo saiu no álbum Time Out.


Mas o bop não havia morrido. No final da década de 50 ele teve uma sobrevida batizada de Hard Bop, que mantinha a vitalidade anterior. Um dos maiores destaques desse período foi o grupo de Art Blakey (1919-1990) e seus Jazz Messengers. Dizzy Gillespie ainda estava na ativa. Charlie Mingus (1922-1979),  John Coltrane (1926-1967) e Thelonious Monk (1917-1982) idem. Assim como Clifford Brown (1930-1956), Wes Montgomery (1923-1968), Herbie Hancock (1940), Max Roach (1924-2007), Wayne Shorter (1933), Stanley Turrentine (1934-2000) e Tommy Turrentine (1928-1997). Muitos prosseguiram pela década de 60 afora.

 


No entanto, seja pela via bop, seja pela cool, o jazz não era mais “dançável”, e começou a perder o público jovem. Público esse que começou a prestar atenção numa moçada que estava fazendo um som diferente, tão empolgante quanto as antigas orquestras de swing. Era um tal de Rock & Roll
(amigos Musicólatras, aqui fica uma sugestão de ponto de partida para quem quiser escrever uma breve história do Rock & Roll).

Mas o jazz ainda não havia acabado…

Leia mais em
Uma breve história do jazz – O início
Uma breve história do jazz – O elo perdido
Uma breve história do jazz – The Trumpet Kings
Uma breve história do jazz – O Blues
Uma breve história do jazz – A Era do Swing
Uma breve história do jazz – As divas
Uma breve história do jazz – O Bebop



1 Musicólatras Comentaram:

Daniel disse...

Essa série "Uma Breve História do Jazz" é mesmo sensacional.

Como te falei outro dia Edison, muito dessas diferenças (entre as vertentes do jazz) fui conhecer e entender através do Miles Davis, afinal o cara é literalmente um camaleão, e passou por diversas vertentes, sempre inovando. Mas lendo a história, acabei percebendo que já ouvia Cool e Hard Bop bem antes (e muitas vezes sem saber)..rs. É o caso do genial Chet Baker e dos músicos Stan Getz, Herb Ellis, Modern Jazz Quartet, Art Blakey e Jazz Messengers, John Coltrane e outros.

Porém essa divisão do jazz só ficou clara na minha cabeça, quando passei a ouvir o som do Miles Davis, pq antes tirando o jazz swing, o restante era tudo JAZZ e eu não sabia diferenciar essas vertentes.

Abraço
Daniel