sexta-feira, junho 25, 2010

Uma breve história do jazz – O Blues

I can’t sleep at night
I can’t eat a bite
‘Cause the man I’m loving
He don’t treat me right

(Crazy Blues)

No primeiro capítulo dessa série, falamos sobre como surgiu o blues e como ele contribuiu para o aparecimento do jazz. Os dois estilos seguiram caminhos distintos, porém que se cruzaram muitas e muitas vezes ao longo dos anos. Mas o blues merece um capítulo especial em nossa breve história, pois, além do jazz, o blues pode se orgulhar de ter influenciado também o rock, o country, o soul, o rhythm and blues, o pop e até a música clássica moderna.

Tecnicamente, o blues é definido como uma canção composta por estrofes de doze compassos. Essas estrofes, por sua vez, subdividem-se em três grupos de quatro compassos quaternários. Melodicamente, o segundo desses períodos de quatro compassos é uma repetição ligeiramente transformada do primeiro, e o terceiro uma resposta. Do ponto de vista harmônico, esses três grupos de quatro compassos estão organizados sob a forma de uma cadência simples: quatro compassos sobre a tônica, dois sobre a subdominante mais dois sobre a tônica, e novamente dois sobre a dominante mais dois sobre a tônica.

Eu não entendi nada disso aí em cima, copiei tudo de um livro. Mas não se preocupe se você também não entendeu, o importante não é entender, mesmo porque um monte de músicas afro-americanas nem se enquadra exatamente nessa regra. Além do mais, o blues não se entende, o blues se sente.

Os versos no topo desse tópico (Crazy Blues) foram cantados por Mamie Smith (1883–1946), em 10 de agosto de 1920, e é a mais antiga gravação de blues que soava como os negros cantavam. Houve outras gravações de blues antes dessa, mesmo de Mamie Smith, mas sempre tinha um toque europeu nos arranjos. E o blues é, na sua origem, uma música essencialmente negra. Nascida dos spirituals e outras canções de trabalho cantadas por escravos libertos, suas letras tinham por tema o sofrimento e muitas vezes protestos contra a escravidão.

Bessie Smith (1894-1937) nasceu em Chatannoga e aos 9 anos já cantava nas esquinas por uns trocados. Durante os anos 20, gravou 180 músicas e suas vendas foram astronômicas para a época. A elite novaiorquina estava sendenta de novidades para espantar o tédio e agarrou-se ao jazz e à dança negra. Bessie Smith, que era uma grande marketeira, soube tirar largo proveito disso.

Robert Johnson (1911-1938) é tido por muitos como o maior cantor de blues de todos os tempos. Cantava ao estilo do Mississipi, o chamado Delta Blues, e serviu de influência para outras vertentes do blues. Como o Chicago Blues, por exemplo, cujo maior representante é Muddy Waters (1915-1983). Não é à toa que ambos já tenham sido visitados aqui no Musicólatras. Confiram clicando nos links em seus nomes.

Outro nome que não pode ficar de fora do Chicago Blues, é John Lee Hooker, ao lado de Muddy Waters, os primeiros a eletrificar sua guitarra.


Dizia-se de Billie Holiday (1915-1959) que ela derramava uma gota de sangue em cada canção. Nas palavras do clarinetista Tony Scott: Quando uma cantora canta as palavras “my man’s gone”, fica um sentimento que ele pode ter ido até a esquina comprar um maço de cigarros e voltar logo. Quando Billie canta “my man’s gone”, o homem se foi para sempre – sua voz expressa em três palavras uma perda total e irreversível. E já que mencionamos o blues como música de protesto, ouça Lady Day, como Bilie também era conhecida, cantando Strange Fruit, uma referência aos corpos dos negros enforcados que ficavam pendurados nas árvores, num de seus raros registros em vídeo. Não dá pra ficar impassível.


E não dá pra falar de blues sem falar no homem que durante os anos 50, 60, 70, 80, 90, até os dias de hoje, é para muita gente sinônimo de blues: B.B. King, King of The Blues.

Riley Ben King nasceu em uma plantação de algodão no Mississipi, em 1925. Tinha um bom berço musical, portanto. Diz uma das lendas do jazz, que um belo dia, em 1949, B. B. King tocava em uma casa de danças, quando estourou uma briga entre dois homens que acabou resultando em um grande incêndio. Evacuado o salão, King lembrou-se de que havia deixado sua preciosa guitarra lá dentro. Voltou para buscar a Gibson acústica e escapou por pouco. Soube-se depois que o motivo da briga foi uma mulher chamada Lucille. Daí em diante, batizava todas as suas guitarras de Lucille, que era para lembrar-se de nunca mais repetir tal estupidez.

Lembro-me de ter assisido a um show dele num festival de jazz que houve em São Paulo no final dos anos 70. Já o conhecia de nome e de som, mas nunca o tinha visto ao vivo (lembrem-se, ainda não existia o video-cassete e o youtube era algo inimaginável). O cara arrasou, um tremendo showman, arrebatou a plateia do primeiro ao último acorde.

Caros musicólatras, com vocês, B.B. King!


Gostaria de encerrar esse longo post exemplificando como o blues segue vivo até hoje, ainda que em formato mais moderno. Para tanto, roubo o vídeo do Robert Johnson que o Thiago colocou em outro post:


E o comparo com a também clássica versão da mesma música, por Eric Clapton:

Leia mais em:
Uma breve história do jazz – O início
Uma breve história do jazz – O elo perdido
Uma breve história do jazz – The Trumpet Kings

(*) O primeiro parágrafo foi corrigido por indicação do musicólatra Rodrigo, a quem agradeço.



2 Musicólatras Comentaram:

Emmanuella disse...

Lindo post, é sempre bom ouvir blues a essa hora da noite! E B.B. King, poxa, mesmo que eu não conheça muito de blues, ele tá sempre na minha lista (culpo minha mãe; ela é culpada de muita coisa que eu escuto, aliás!).

Rafhael Vaz disse...

Cara todos os artistas que citou são sensacionais. Billie Holiday realmente é considerada a melhor cantora de jazz do todos os tempos. Ótimo post!!

Abraços!!