quarta-feira, junho 23, 2010

Choro, o jazz brasileiro?



Olá, Musicólatras!! Primeiramente, venho me desculpar pelo sumiço, afinal, há meses que não faço um post sequer por aqui. Porém, era algo já previsto com a volta às aulas na faculdade, e a tendência é piorar conforme as provas vão sendo marcadas. Mas sempre que eu lembrar de algum assunto que pode ser explorado neste espaço, aos pouquinhos vou fazendo um novo post. E assim, após algumas semanas, finalizei este curto post com um tema que achei interessante, pois é normal muitas vezes repetirmos algo que lemos ou ouvimos, sem saber que aquela informação está errada. Enfim, espero que gostem!!


É comum, ouvirmos ou lermos se referirem ao choro como o “jazz brasileiro”. A comparação é compreensível afinal, ambos os estilos são instrumentais em sua origem, caracterizados pelo virtuosismo e improviso dos participantes, que precisam ter muito estudo e técnica, ou pleno domínio de seu instrumento para a execução musical. Ok, em um primeiro momento está tudo certo, mas não precisamos ir muito a fundo para perceber que a comparação é inapropriada por dois motivos principais:

O primeiro por questões puramente cronológicas, afinal, como pode o choro (ou chorinho) ser o jazz brasileiro se ele surgiu antes do jazz? Isso mesmo, o choro, não como gênero musical mas como forma de tocar, apareceu por volta de 1870 no Rio de Janeiro, ou seja, é um gênero musical com praticamente 140 anos de existência - considerado a primeira música popular urbana típica do Brasil - enquanto o jazz se originou em meados de 1910. O correto (ou mais lógico) então, seria chamar o jazz de “choro estadunidense”.

Outro motivo é a origem diferente de ambos. O jazz provém da cultura negra estadunidense e o choro tem origem européia, mais precisamente da polca, um estilo musical e de dança, de compasso binário, com uma figuração rítmica característica no acompanhamento que se originou na região da Boêmia (Império Austríaco), no início do século XIX, com difusão posterior por toda a Europa e parte da América. Foi interpretada pela primeira vez no Brasil na noite de 3 de julho de 1845 no palco do Teatro São Pedro, no Rio de Janeiro, pelas duplas de atores Felipe e Carolina Cotton e Da Vecchi e Farina. A polca espalhou-se pelos salões de todo o país como uma espécie de febre que explicaria, inclusive, a criação em 1846 de uma Sociedade Constante Polca na côrte carioca. Cultivada por compositores de teatro musicado e amadores componentes de grupos de choro, a polca acabaria por fundir-se com outros gêneros locais de música popular desde a virada dos séculos XIX / XX, para chegar à era dos discos mecânicos. E isso demonstrado pelo levantamento de centenas de gravações, entre 1902 e 1927, de polcas dobrado, galope, fado, fadinho, lundu, tango e, ainda em criações originais tipo polca militar e polca carnavalesca. Foi revivida ainda, após a década de 1930 em composições eventuais sob as firmas de polca-choro, polca-maxixe, polca-baião e até numa curiosa experiência de polca-canção.

Mas, apesar da frase: “choro, o jazz brasileiro” não ser apropriada,  houve, posteriormente, a união dos estilos. União esta, recebida com certo preconceito. Como ocorreu em 1919, quando Pixinguinha formou o conjunto Oito Batutas, sucesso entre a elite carioca, tocando maxixes e choros utilizando instrumentos até então só conhecidos nos subúrbios cariocas. Quando, porém, compôs "Carinhoso" e "Lamentos" (considerados dois dos choros mais famosos) Pixinguinha foi criticado pelo fato das composições terem uma inaceitável influência do jazz. Na verdade, elas eram avançadas demais para a época, além do que, "Carinhoso" na época não foi considerado choro e sim polca. Outro exemplo (mais recente) da união, é realizado até hoje por Severino Araújo, que, em 1944, adaptou choros à linguagem das big bands. Como maestro da Orquestra Tabajara - orquestra que assumiu com apenas 21 anos de idade - Severino Araújo gravou vários choros de sua autoria. Exemplo  que depois foi seguido por outras orquestras e compositores.

Então, para fechar, podemos dizer que o mais apropriado nessa questão, seria chamar a bossa nova como o “jazz brasileiro”, pois, este sim teve influência direta no ritmo estaduniense.


Ouçam abaixo Jacob do Bandolim tocando a clássica "vibrações". Jacob do Bandolim que é considerado um dos maiores tocadores de choro que o Brasil já teve.

Jacob do Bandolim - Vibrações


Abaixo um vídeo bem caseiro, mas bem tocado, de uma banda tocando polca, para os que tiverem a curiosidade de fazer uma comparação.



5 Musicólatras Comentaram:

Emmanuella disse...

Caramba, eu nunca tinha associado choro à polca, me senti ignorante, HUAHUAHuh

Eu não sei vocês, mas eu to achando super válida a ideia desse blog. A gente junta todo tipo de informação musical num lugar só, é muito mais prático de pesquisar.

Rafhael Vaz disse...

Manu, na verdade eu não tinha associado também não. Só fui descobrir quando fui pesquisar o ano ao certo da origem do choro e do jazz.

O blog tá dando certo mesmo, o meu receio era que o pessoal parasse de postar com o tempo, mas está acontecendo ao contrário, a frequência (até pq chegaram novos membros) tem aumentado. Aos poucos vamos criando um acervo valioso. =D

Edison Junior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Edison Junior disse...

Achei ótima essa de chamar o jazz de choro estadunidense!

Então, assim como a bossa nova, o choro também foi "acusado" de sofrer influência do jazz! Muito provavelmente, ambos sofreram essa influência, mas que mal há nisso, a não ser para os xenófobos?

Não sei quanto ao choro, mas a Bossa Nova também influenciou muito o jazz, e nem todos valorizam esse fato. Boas influências são quase sempre bem-vindas e bem-idas. Essa mistureba é um barato.

E é isso que faz desse blog um lugar a ser visitado sempre. Abrimos nossas cabeças para estilos musicais que pouco conhecemos e aprendemos bastante.

Só gostaria que mais gente deixasse um comentário, nem que seja só um "gostei" ou "detestei", conforme aplicável.

Gostei, Raphael! Ótimo post!

Beijos, caros amigos musicólogos!

Rafhael Vaz disse...

"Essa mistureba é um barato"

Também acho, é o que faz os estilos de música se reinventarem.

Faço coro e tb peço que o pessoal que visita o blog tb deixasse sua opinião, mesmo que não concordo com o conteúdo postado. Discusões sadias são sempre bem-vindas.