sexta-feira, maio 28, 2010

Uma breve história do jazz – The Trumpet Kings

Jazz 01

Os primeiros músicos de jazz tornaram-se ídolos de toda a geração que nasceu por volta de 1900, dentre eles, os trompetistas Lee Collins (1901-1960), Punch Miller (1894-1971) e Henry Red Allen (1907-1967); os clarinetistas Jimmy Noone (1895-1944), Albert Nicholas (1900-1973), Johnny Dodds (1892-1959) e Sidney Bechet (1897-1959); começaram a surgir os primeiros saxofonistas, como Barney Bigard (1906-1980), que depois tocou na orquestra de Duke Ellington; e dois jovens bateristas, Baby Dodds (1898-1959), de forte herança africana, e Zutty Singleton (1898-1975), que soava “moderno” para os ouvidos da época.

Aqui se inicia um dos maiores paradoxos do jazz: apesar de todos os músicos acima serem negros ou creoles, eram os brancos, relativamente menos numerosos, que faziam mais sucesso e realizaram as primeiras gravações da nova música, em 1917, com a Original Dixieland Jazz Band:
 


A propósito, eu não me esqueci dele. Pulei propositadamente um nome importante dessa época, o maior deles: Louis Armstrong (1900-1971). Aliás, um dos maiores de todos os tempos.

O trompete era o intrumento principal das bandas naquele tempo. Uns dizem que é porque estaria associado às trombetas tocadas pelos anjos no Apocalipse, e tocar trompete seria uma experiência quase religiosa. Pode ser, mas parece mais provável que fosse assim por ser um dos instrumentos mais baratos e, certamente, um dos mais portáteis. O melhor trompetista era aclamado como rei, o Trumpet King, e isso em New Orleans equivalia a ser o Rei da Música! O aclamado subia o Rio Mississipi numa barcaça e desembarcava no cais de Basin Street. Ao longo dos anos, a coroa passou por Buddy Bolden, Freddie Keppard e Joe King Oliver, que por fim a passou a Louis Armstrong, e partiu para Chicago.


Storyville já não era mais a mesma. Com o advento da 1ª Grande Guerra e o aumento na violência e assaltos, um decreto acabou com a vida noturna e fechou muitos dos lugares onde tantos músicos ganhavam a vida. Muitos começaram a rodar o país e se estabelecer em lugares como São Francisco e, principalmente, Chicago. Em 1922, Oliver já fazia sucesso por lá e mandou buscar Armstrong para tocar na King Oliver Creole Jazz-band, onde realizaram praticamente as primeiras gravações de um grupo de jazz negro.

A química entre os músicos era perfeita. Músicos e fãs não conseguiam entender como era possível improvisar espontaneamente a duas vozes. Deixemos que Louis explique: “Não tínhamos nada escrito. A banda tocava e Oliver me dizia o que tocar por cima, ‘wa wa wa wa!’ Eu pegava minhas notas e os músicos que vinham ouvir a gente achavam que aquilo era uma fórmula secreta entre nós dois.”

King Oliver Creole Jazz-band
Porém, nada dura para sempre, e em 1924 Oliver e Armstrong se separaram. Satchmo, como Armstrong também era conhecido, levou junto a pianista do grupo, Lil Hardin, e casou-se com ela. Durante três anos ele gravou cerca de 60 faixas, exibindo toda a riqueza de seu som e firmando seu estilo. Além de tocar seu trompete, também cantava e, numa dessas “inventou” o scat, que consiste na utilização da voz como instrumento musical. E isso surgiu meio sem querer: no meio da gravação de Heebie Jeebies.

Como toda lenda do jazz, essa história tem várias versões. A mais provável dá conta que no meio da gravação ele deixou cair o papel em que estava escrita a letra da música. Sem se abalar, ele seguiu cantando palavras inventadas, utilizando sons que combinavam com a música: ba-da-bada-badi-bauááá, até que alguém devolveu-lhe o papel caído e ele seguiu cantando.

Quem usa o scat? Anota aí: Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Billy Eckstine, Mel Tormé, Al Jarreau, George Benson e, ninguém menos que, Frank Sinatra.

Armstrong esteve no Brasil na década de 60. No afã de entrevistar-lhe, o repórter Tico-tico estendeu o microfone em sua direção e atingiu sua boca, provocando-lhe um lamentável corte. Você não vai encontrar essa história por aí, faz parte da memória da minha mãe.


Satchmo faleceu em 1971, deixando sua marca na história do jazz e da música em geral, além da imagem inconfundível de suas bochechas inchadas (superada alguns anos depois por Dizzy Gillespie), o som de sua voz grossa e os olhos arregalados. E uma simpatia do tamanho de um bonde. Suas últimas palavras foram: "I had my trumpet, I had a beautiful life, I had a family, I had Jazz. Now I am complete."


Neste último, o ator Danny Kaye faz uma brincadeira com Satchmo, em cima da música When the Saints Go Marching In, incluindo na letra vários nomes de compositores clássicos, enquanto Louis responde com nomes de músicos de jazz.


Leia mais em:
Uma breve história do jazz – O início
Uma breve história do jazz – O elo perdido



4 Musicólatras Comentaram:

Rodrigo Nogueira disse...

Segundo a série de Ken Burns, a primeira gravação de jazz deu-se por um grupo de brancos pq um artista negro (putz, esqueci o nome do sujeito), havia se recusado a gravar movido à superstições.
O 1º trompete de Armstrong foi comprado por um casal de imigrantes russos que empregavam a mãe dele como doméstica.

Há especulações sobre filmes que contarão a história de Louis (com Forest Whitaker) e de Sinatra (Robert De Niro), nada mau hein?

Abraço!

Rafhael Vaz disse...

Ótimo post!!
Quanto ao fime de Sinatra já tá certo, e estou bastante ansioso. Ainda mais pq vai ser dirigido pelo mestre Martin Scorcese.
Mais Informações: http://www.cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_noticia=33403&id_filme=7334&aba=cinenews

Daniel disse...

Post excelente.

Depois vou ler e assistir os videos com calma e deixar um comentário.

Abraço
Daniel

Edison Junior disse...

Taí dois filmes que eu vou ver. E comprar. Valeu!