terça-feira, maio 18, 2010

O Brasil na Bagagem

Eu estava preparando algo totalmente diferente para postar, mas acabei me lembrando desse texto, que na época foi divulgado no primeiro volume da coleção “Folha 50 Anos de Bossa Nova” que era exatamente sobre o maestro Tom Jobim.

Por Coleção Folha: "50 Anos de Bossa Nova"

É interessante como os brasileiros e americanos (e, através destes o mundo) se entregaram a Tom Jobim por caminhos diferentes. O que “Chega de Saudade” significou para o Brasil foi representado, nos Estados Unidos, por “Desafinado” (“Off-Key” , na versão em inglês). A emoção que sentimos ao ouvir “Samba de Avião” pode ser incompreensível para os gringos – que, em compensação se apaixonaram por “Wave”. Os dois grandes casos de paixão em comum foram por “Garota de Ipanema” e claro “Águas de Março”.

De 1962 para cá, “Garota de Ipanema” fez de tudo na vida: nasceu Cult, tronou-se um sucesso, depois um mega-sucesso, passou a ser considerada o hino da bossa nova, foi reduzida a kitsch e, desde há muito, incorporou-se, com tranqüilidade, ao repertorio universal: é um dos maiores Standards do século XX. Já foi e continua a ser gravada por tanta gente que não se sabe como as sociedades que cuidam de seus royalties mantêm o controle: pelas ultimas contas, “Garota de Ipanema” teria perto de 300 gravações – mas o número real deve ser o dobro disso, somando-se as obscuras versões não autorizadas que vivem sendo feitas. Na internet, fica-se sabendo de gravações por piano solo, orquestra sinfônica, quarteto de cordas, banda de gaita e foles e até gangues de funk e hip hop. O espectro de seus interpretes vocais vai de Frank Sinatra, que você sabe muito bem quem é, a Floyd the Barber, de quem você nunca ouviu falar (trata-se de um cantor de rap). Tudo isto é legalizado, mas, e as paródias de “Garota de Ipanema” – humorísticas, sensuais e tantas outras – que até hoje abundam, principalmente nos Estados Unidos?

Neste momento, os principais portais ou mecanismos de busca da internet, contêm, cada qual, um mínimo de 600 mil entradas relativas á “The Girl from Ipanema” – vasculhá-las por inteiro, só no espaço de uma ou duas vidas. Há páginas falando da Jeune Fille d’Ipanema, da Ragazza de Ipanema e da Chica de Ipanema, o que é normal, mais há também sites em russo, grego, japonês, chinês, coreano, árabe e outras línguas para as quais o computador precisa ter os caracteres adaptados. A partitura contendo a melodia de Tom, a letra original de Vinicius de Moraes e a versão em inglês de Normal Gimbel, está exposta à exaustão na rede, muitas vezes com áudio (na gravação de Astrud com Getz). No caso da letra de Vinicius, não faltam adaptações fonéticas para ajudar o pessoal de língua inglesa a reproduzir a interpretação de João Gilberto resultando em coisas assim: “Aw-lyuh kee koey-suh mah-izh leen-dah/Mah-iz shay-ya dee grah-suh....”

Internautas dos EUA, do Japão e da Alemanha trocam mensagens relatando onde estavam, fazendo o quê e o que sentiram ao ouvir “The Girl from Ipanema” pela primeira vez. Mais ou menos como, por muitos anos, se fez com o assassinato do presidente John Kennedy em Dallas, Texas a 22 de novembro de 1963. Não por acaso, seu lançamento internacional, na gravação de Astrud, se deu em seguida à morte de Kennedy, a há quem associe seu imediato sucesso nos Estados Unidos ao efeito calmante que a canção teria sobre os americanos depois de um impacto violento – como se, de repente, para eles, o mais sensato fosse jogar tudo para o alto e ir para uma praia chamada Ipanema, uma Xangri-la moderna, bem longe do Vietnã, onde garotas altas e bronzeadas passeavam soberbas e soberanas pelas areias, e todo mundo fazia “Ah....”. A diferença é que cada vez há menos gente capaz de se lembrar onde estava naquele longínquo dia em que mataram Kennedy – mas “The Girl from Ipanema” continua a marcar quem, até hoje, a ouve pela primeira vez.

O mesmo acontece com “Águas de Março”, que, em português ou inglês, transporta o ouvinte para uma realidade fora de tempo e do espaço deste insensato mundo. Na realidade – assim como “Chovendo Roseira” – é uma crônica do sítio da família de Tom em Poço Fundo, aonde, desde cedo, ele foi se esconder dos carros, aviões e arranha céus que turvaram a sua fome de paisagem. Ou seja, um universo chão mateiro e, à primeira vista, a antítese da bossa nova, se comparado às temáticas urbanas e cariocas de praia/verão/mulher de sua obra inicial, e de que “Garota de Ipanema” é o exemplo supremo. Mas, curiosamente, aqueles paus e pedras e fins do caminho eram bossa nova do mesmo jeito – como tudo que ele fez.

Tom compôs numa variedade de gêneros, ritmos e metros brasileiros, como se promovesse uma verdadeira ocupação musical do Brasil, e a todos imprimiu uma sonoridade “bossa nova” – nomenclatura que, ao contrário de alguns, ele nunca rejeitou, numa notável fidelidade à musica que o consagrou. Tom foi também o herdeiro, e talvez o ápice, de uma grande tradição do piano brasileiro, que começou com Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Villa-Lobos, Sinhô, Ary Barroso, Custódio Mesquita, Vadico, Alcyr Pires Vermelho e outros, por ordem de entrada em cena, e prossegue hoje com Gilson Peranzetta, Francis Hime, Wagner Tiso e tantos mais.

Em 1967, quando aceitou o convite de Frank Sinatra, então o maior cantor do mundo, para gravar com este um disco de suas canções, Tom deve ter tido um problema com malas ao embarcar para Los Angeles: excesso de peso. Era inevitável. Afinal, levava o BRASIL NA BAGAGEM.

Fonte: Coleção Folha "50 Anos de Bossa Nova" (Volume 1: Tom Jobim)



2 Musicólatras Comentaram:

Edison Junior disse...

Não me lembro de onde eu estava quando ouvi Garota de Ipanema pela primeira vez (nem da morte do Kennedy), pois eu era muito pequeno, acreditem, mas cresci ouvindo bossa nova (Chega de Saudades foi gravada no ano em que nasci) e dela serei fã para sempre. Não só pelo que ela representou para o Brasil, mas principalmente para o que significou para mim e a formação de meus gostos musicais.
Tom Jobim é uma das figuras mais fantásticas do cenário musical mundial. Desses que só vão aparecer muito de vez em quando, e que têm relativamente poucos paralelos em importância, tais como Cole Porter, Mozart, Beethoven e Beatles.
Ele merece mais posts no Musicólatras! Valeu, Daniel, tornou meu dia mais feliz!

Daniel disse...

Eu não me lembro onde eu estava e muito menos em que época da minha ouvi a música. Apesar de sempre ouvir falar de Tom Jobim, meu contato com a Bossa Nova foi através do John Pizzarelli, no álbum "Bossa Nova". Depois com o tempo fui conhecer um pouco mais da obra do Tom e Vinicius.

A verdade é que eu queria ter conhecido a música do Tom Jobim bem mais cedo.

A verdade é que da orgulho saber que a imagem da música brasileira lá fora é esta e que o Tom tem uma grande parcela nisso. É impressionante a quantidade de vezes que a "Garota de Ipanema" foi gravada, sem falar que cada vez mais os músicos de jazz se rendem a bossa nova.

E bom saber que gostou do texto. Com certeza vou trazer outros posts do Tom.

Abraço