quarta-feira, abril 14, 2010

Renovação Musical


Primeiramente, gostaria de expor um post que li recentemente do blog “Cápsula da Cultura” , que apesar de não estar mais sendo atualizado, possui um ótimo acervo de samba, e foi navegando neste blog que me deparei com um post que data de 2007 com um tema que rende eternas discussões. Tentarei ser breve ao explicar o motivo da discussão no post, antes de generalizar o tema – quem quiser ler o post ao qual me refiro, clique aqui.

No samba, assim como em todos os estilos musicais, existe a corrente que defende o chamado “verdadeiro samba”, o samba da velha guarda, aquele cadenciado (como o de Paulo César Pinheiro, João Nogueira e Paulinho da Viola para citar alguns), e desprezam o samba mais acelerado, mais comum hoje em dia. Detestam quando chamam este samba, como samba de raiz. O problema é que, dos pagodes de Cacique de Ramos (pagode que no seu conceito original, significa simplesmente um encontro, uma reunião de sambistas, a famosa roda de samba), surgiu o famoso grupo Fundo de Quintal (assim como posteriormente Zeca Pagodinho, Neguinho da Beija-Flor, Sombrinha entre tantos outros) que mudou a estrutura do samba, introduzindo outros instrumentos e mudando sua harmonia, fazendo um samba mais acelerado. A indústria cultural e fonográfica se aproveitou do ritmo para fabricar grupos denominados “pagode”, dando outro conceito à expressão criando um estilo musical sem originalidade, uma cópia comercial e mal feita do samba, invertendo totalmente os valores e a mensagem inicial. Por isso os saudosistas chamam o estilo que o Fundo de Quintal foi pioneiro como “pagode de raiz”, pois, os grupos de pagode surgiram e se fortaleceram a partir dessa nova estrutura do samba. Sendo assim, segundo estes, quem gosta desta nova estrutura do samba feita pelo Fundo de Quintal, na verdade gosta de “pagode de raiz”, ou seja, gosta de pagode e não de samba. Samba, é só aquele cadenciado. Dizem que hoje além de só fazerem do samba acelerado, virou moda tocar samba (referência à esta nova geração da lapa: Pedro Miranda, Teresa Cristina, Roberta Sá, Mariana Aydar etc) e ficou, consequentemente, artificial. Do outro lado, os que gostam de ambos os tipos de samba, rebatem dizendo que se não fosse o FDQ e esta nova geração do samba carioca o samba estaria morto, desaparecendo. Pois, hoje são eles que mantém o samba vivo, e resgatam clássicos tocando-os em seu repertório, deixando a história, a memória sempre em evidência. E o debate gira em torno disso até os argumentos esgotarem, sem ninguém mudar de opinião. Na minha opinião, essa discussão desnecessária não tem fim, pois os dois lados tem boa dose de razão. É como se eu tentasse com um fato verdadeiro, provar que outro fato verdadeiro é falso: vão sobrar argumentos para ambos os lados e ninguém conseguirá provar que o outro está errado.Cada cultura musical sobrevive sendo resgatada e renovada pelas novas gerações, do contrário seria esquecida com o tempo, afinal, “camarão que dorme, a onda leva”.

Sabemos que a renovação musical é algo natural (inexorável arriscaria dizer) na história, e provavelmente sempre irá acontecer. Todo estilo musical é baseado em outro inventado anteriormente, até mesmo o blues considerado a raiz de quase todos os estilos existentes hoje foi baseado em uma música originária de Mali, África. O soul da música gospel, o funk do soul, o reggae do ska, o jazz no ragtime e no blues - aliás, a renovação é tão comum que o próprio jazz de Chicago (criado por volta de 1920) já é uma cópia do verdadeiro jazz de Nova Orleans. Os valores, as culturas, o modo de pensar são diferentes em cada local do planeta, dois povos diferentes não vão absorver um ritmo da mesma forma. Os ingleses não vão tocar samba como o brasileiro, eles absorveriam o ritmo de acordo com a sua cultura e um novo ritmo surgira. Foi assim por exemplo, que a música punk se fundiu ao ska, quando este chegou nas terras britânicas. Ao meu ver, algo parecido também acontece com cada geração. Cada uma tem seu modo de ver, até por que as prioridades mudam com o passar dos anos. As canções que meu avô escrevia em plena ditadura militar tinham outra urgência das que eu, no auge da globalização e da internet escreveria. A música acompanha as mudanças do mundo, ainda bem, música é um instrumento muito rico para ser vencido pelo tempo.
Hoje estamos em um novo caos musical: mistura atrás de mistura atrás de mistura, numa velocidade jamais vista. Ska-jazz, acid jazz, samba rock, pop punk... Com a internet passamos a ter acesso a uma infinidade de estilos musicais, somos bombardeados por influências de todos os lados e como resultado criamos esta salada musical, este caos musical que nos encontramos hoje. Como aconteceu de uma forma repentina, acredito que continuaremos misturando, testando, experimentando até “novas bases” serem criadas.

Quanto ao chamado lixo musical, não tem jeito, sempre haverá grupos feitos pela mídia com o único intuito de vender. Critico mas procuro não julgar, pois não deixa de ser uma profissão. O dinheiro sempre vai ter uma influência grande em nossas decisões. É fácil escrever e falar mal como estou fazendo, mas sempre penso: será mesmo que eu faria diferente? Não sei, não é uma pergunta fácil de se responder e nem perco tempo buscando uma resposta. Prefiro gastar tempo colaborando à minha maneira, divulgando o que julgo ser de qualidade, pois na falta de opções a maioria recorre à mídia.

Bom, essa é minha opinião sobre o assunto. Gostaria que compartilhassem também a de vocês.

Abraços!!



6 Musicólatras Comentaram:

Emmanuella Conte disse...

Eu não sei se tenho uma opinião formada sobre renovação musical. Por exemplo, eu penso pelo próprio Ska. Geralmente os seguidores do tradicional Ska jamaicano abominam a third wave, por ser uma distorção das origens e blá blá blá. Ok, defendo que a origem deva ser preservada, MAS - será que se o Ska não tivesse se adaptado aos tempos, ele ainda seria ouvido hoje em dia; ainda teria gente como você e eu, que não estávamos vivos na época, ouvindo e curtindo Ska agora? Acredito que seja assim com os outros estilos musicais, também.

É claro que tem aquela bagunça, como você mesmo citou, de alguns pagodes medíocres serem chamados de "samba" quando isso pode ser encarado como uma ofensa aos mestres. Eu realmente não sei o que opinar, afinal o povo tá trabalhando e, no fim das contas, acaba sendo tudo questão de gosto.

Rafhael Vaz disse...

Po, iria até citar esse exemplo do ska do post, mas achei que o exemplo do samba já serviria. O meu primeiro contato com o ska foi com a third wave, dps que fui me aprofundando, hj mesmo gostando mais do tradicional, gosto bastante do criado na década de 90.

O que vc disse aqui: "MAS - será que se o Ska não tivesse se adaptado aos tempos, ele ainda seria ouvido hoje em dia?"

FOi o que eu quis dizer aqui: Cada cultura musical sobrevive sendo resgatada e renovada pelas novas gerações, do contrário seria esquecida com o tempo, afinal, “camarão que dorme, a onda leva”.

No caso do samba, o Fundo de Quintal pode ser entendido como a third wave do ska. Mudou a estrutura, mas manteve o estilo musical vivo.

Rafhael Vaz disse...

Ah sim, não sei se ficou claro mas o Fundo de Quintal é sim considerado samba pela maioria. A sonoridade deles é BEM diferente da dos grupos de pagode de hoje. A bronca dos mestres, de uma forma resumida, é que eles deram a brecha para a formação desses grupinhos de pagode.

É como se eu tivesse montado uma banda de funk americano com algumas modificações no estilo, e essa modificação tivesse sido usada para criar o funk carioca. A minha banda seria o FDQ e o funk carioca o "pagode" de hj. Mais ou menos isso. hahah

Emmanuella Conte disse...

Aham, eu acabei dizendo o que você disse com outros exemplos, hahah
Essa do funk carioca é uma. A coisa não tem nada a ver com o funk americano G.G

Edison Junior disse...

Bela discussão essa.

Música boa é música boa. E deveria ser assim independentemente de ser nova ou velha. Nenhum estilo dura para sempre. Pelo menos com a mesma forma. O jazz e o samba são exemplos claros disso, sobre como mudaram e evoluíram criando facções diversas ao longo dos últimos cento e tantos anos.

Quando um determinado estilo satura, um novo surge e lhe toma o lugar. A bossa nova surgiu em contraposição ao que se tocava na época, aqueles bolerões e sambas-canções. O próprio nome no movimento sugere que o outro era uma bossa velha, que, convenhamos, não inspira grandes vendas. Idem com relação à jovem guarda e à velha guarda, o swing e o charleston, o bebop e o swing, e por aí vai.

Talvez uma pessoa tenda a gostar mais da música do “seu tempo” do que das novidades, salvo se tem uma cabeça muito aberta ou, ao contrário, totalmente vazia.

Cidadão médio que sou, confesso que fico no meio do caminho. Adoro conhecer novos sons e até vou atrás deles, mas tendo a gostar mais dos que ficam mais próximos aos que ajudaram a formar meu gosto musical em tempos idos.

Rafhael Vaz disse...

Manu

Não, eu comparei o que vc disse com o trecho que postei, para mostrar que concordo 100%. Este ponto que comentou é o que considero mais importante: Não fosse a nova geração adaptando os estilos (ainda que as vezes sob críticas), será que eles teriam sobrevivido? Seriam ouvidos como é hoje?

Edison

Exatamente. As pessoas percebem (absorvem) determinados estilos de músicas de diferentes formas, ou seja, de acordo com a sua realidade. Como o exemplo que citei, Na época da ditadura a MPB era percebida pelas pessoas de uma forma diferente de hoje. Como manter a mesma estrutura musical se o prisma é outro? Isso não existe. E ramificações e derivações dos estilos vão sendo criados.

Meu caso é parecido com o seu. nasci em 85, minha referência musical foi a década de 90, a tão criticada por muitos por ter comercializado diversos estilos musicais (até pq a internet explodiu nesta década). Assim conheci a música punk primeiro pelo pop punk e hc melódico, o ska pela chamada "third wave" e assim vai. Nesse ponto muito das críticas são influencias pela "Síndrome do Underground", onde a pessoa tem aquela sua banda favorita que pouquíssimos conhecem e, de repente passa a odia-la pq se popularizou. Casos assim não faltam.