sexta-feira, março 26, 2010

Oscar Peterson

Nas minhas audições iniciais de jazz, eu curtia muito solos de bateria. Por causa de um desses solos, o de Louis Bellson no álbum gravado ao vivo no festival de Montreux de 75 com o grupo The Oscar Peterson Big 6, comecei a prestar atenção nesse grande pianista canadense.

Careço de conhecimento suficiente para falar de sua técnica e de como sua mão direita e esquerda passeiam leves pelo piano. Então, eu passo. Só sei que o resultado é… absolutamente maravilhoso. Para se ter uma idéia, aos 70 e tantos anos, ele ainda estudava piano durante 9 horas por dia.

No início dos anos 80 ele veio ao Brasil para três apresentações no Teatro Municipal de São Paulo. Comprei ingresso num dos melhores lugares para a última noite. Chegando lá, estranhei a pequena quantidade de gente na porta do teatro. O show havia sido cancelado, pois o artista havia brigado com o empresário. Não sei a razão da briga, mas fiquei com muita raiva do empresário. O dinheiro foi devolvido, mas a frustração só seria superada anos depois, quando ele voltou ao Brasil para uma apresentação no Parque do Ibirapuera, em 1996. Mesmo debilitado por um derrame sofrido alguns antes (o Oscar, não eu), o show foi fantástico.

A foto abaixo eu baixei do blog do fotógrafo
Armando Catunda. Ao fundo o baixista Niels Pedersen.

 
Segue um trecho da música Blues Etude, extraída do DVD The Berlin Concert, gravado ao vivo em 1985. É ou não é duca?


Enquanto Oscar ainda era um pianista da noite conhecido apenas no Canadá, o produtor americano Norman Granz, que promoveu os primeiros festivais de jazz, como o JATP – Jazz At The Philarmonic, tomou um taxi em Montreal para ir ao aeroporto e voltar para casa. No caminho, o rádio do carro tocava uma música que o encantou, levando-o a perguntar ao motorista que gravação era aquela. “É Oscar Peterson - respondeu ele - e não é gravação, é ao vivo”. “Então esquece o aeroporto, leve-me ao teatro!”, ordenou Granz. Nascia aí uma grande amizade e parceria.

Pegando o gancho no tema racismo levantado pelo Raphael, Oscar Peterson também sofreu com esse problema em vários momentos de sua vida, tanto ele quanto seus companheiros negros de banda. Ainda no Canadá, havia um espectador que frequentava seus shows por várias noites seguidas. Descobriu-se que ele vinha de longe para ouvir a música. Ao término de um dos shows, Oscar levantou-se e foi cumprimentar o fã, estendendo-lhe a mão. O homem virou-se e disse: “adoro ouvi-lo tocar, mas não posso dar-lhe a mão”.

Nos hoteis onde o pessoal do JATP se hospedava, era comum imporem resistência para receber aquele “bando de negros”. Esse preconceito, embora evidentemente sem o mesmo impacto, os músicos brancos como o guitarrista Herb Ellis também enfrentaram, pois eram muito questionados em sua capacidade de interpretar jazz.

Oscar Peterson não compôs muito, mas uma de suas músicas fala justamente sobre racismo. Foi composta no início dos anos 60, no auge dos discursos de Martin Luther King, e chama-se Hymn to Freedom.

Oscar Peterson nasceu em 15 de agosto de 1925 e morreu em 23 de dezembro de 2007.



5 Musicólatras Comentaram:

Marcello disse...

Edison... Muito bom texto, Oscar é sem dúvida um ícone do jazz....

Parabéns... estamos escrevendo só coisas boas....

vamos fazer uma comunidade no orkut,e espalhar aos quatro ventos nosso espaço.

Abração.

Rafhael Vaz disse...

Já conhecia Oscar Peterson, mas não sabia dessa dele com 70 e tantos anos ainda estudar piano durante 9 horas por dia. Na verdade, só isso já diz tudo.

Sensacional!!

Emmanuella Conte disse...

Poxa, ainda sou tão ignorante sobre Jazz... Sorte que temos nosso blog aqui pra resolver a questão, haha

Racismo é uma coisa que me revolta. Tirando todas as questões que o envolvem, penso sobretudo no música. Grande parte da música que amamos (se não toda, hein) descende da música negra. Jazz, blues, rock, samba, ska, reggae. Tudo. Muita pretensão querer subestimar quem nos deu tudo isso.

Daniel disse...

Oscar Peterson é gênio. Conheço pouca coisa dele, mais o suficiente pra reconhecer a importância dele no cenário jazzistico.

Excelente o texto e os vídeos. Não conhecia a música "Hymn to Freedom"

Abraço

Fernando J. Pimenta disse...

Assim que eu voltar a ter som no PC, hei de ouvi-lo. Obrigado pela dica. Eu sou um amante do Jazz. Recomendo um compositor maravilhoso, que não se restringiu ao jazz, nem brilhou muito desse gênero específico, mas que foi soberbo em todas as suas inovações musicais (usando instrumentos da índia, da Polinésia, e inserindo-os em orquestras): Lou Harrison.

Acabo de ouvir "Elegia", dele, na Rádio Cultura. Eu só precisaria de uma rádio no mundo para levar bem minha vida. E a tenho, abençoado que sou.

Muito bom seu artigo, como de costume, meu caro!

Abraço!