sábado, março 27, 2010

Ed Motta: "Piquenique" (2010)



Amado por uns e odiado por outros. Todo músico passa por isso durante a carreira. Ed Motta não é diferente, muitas vezes considerado arrogante e criticado de maneira dura por alguns pseudo-jornalistas, que deixam a música de lado e parte para ofensas pessoais. Porém quem conhece a carreira e acompanha mesmo que de longe, sabe que o Ed está longe de ser uma pessoa assim, pelo contrario, em várias oportunidades se mostra carismático e muito atencioso com os fãs. Mas talvez essa imagem de arrogante seja o preço pagar por ser um músico diferenciado, em meio a tantos considerados “comuns”. A verdade é que Ed Motta não faz seu som preso a rótulos ou tendências musicais. Sua música está ligada diretamente a cultura norte americana, de onde vem grande parte das suas influências. Porém apesar de todo conhecimento musical, se não fosse o seu talento nada disso adiantaria.

Desde 2003 quando trocou de gravadora, saindo da Universal e ingressando na Trama, Ed Motta trilhou pelo caminho da liberdade musical, prova disso foi o último álbum “Chapter 9” (2008), que foi cantado todo em inglês e o próprio Ed se encarregou de tocar todos os instrumentos, a meu ver foi uma das maiores mudanças na sonoridade do Ed, porém em se tratando de um gênio, o álbum caiu no gosto e agradou boa parte dos fãs. Outra prova dessa liberdade foi o samba-jazz que embalou o excelente “Aystelum” (2005), um álbum inovador e enigmático para muitos e o “Dwitza” (2000), um álbum quase todo instrumental. Mas como tudo tem um preço, Ed acabou pagando com a popularidade (se é que posso chamar assim) e agora com o seu novo trabalho em cena, ele traz um som que nos remete aos bons tempos do "Manual Prático Para Bailes, Festas e Afins" (1997), “Conexão Japeri” (1988) e “Entre e Ouça” (1992).

“Piquenique” foi produzido pelo próprio Ed Motta, em parceria com Silveira, já nas canções a ajuda é da sua esposa Edna Lopes, autora de onze das 12 letras e que também é responsável pela arte gráfica. O ponto forte do álbum é à volta as origens do músico, flertando intensamente com o funk e o soul, sem falar da pegada pop que tanto marcou a carreira do Ed. O som e as letras soam perfeitamente, com um ar de espontaneidade e alegria do começo ao fim, tudo sob medida e nada exagerado, as letras são gostosas e grudentas, sendo impossível ouvir apenas uma vez. Com participações especiais da cantora Rita Lee na letra da música “Nefertite” e da Maria Rita na sensual “A Turma da Pilantragem” – faixa que celebra Wilson Simonal – em um dueto sensacional com o Ed. Apesar de o álbum soar descontraído, Ed preza pelo som sofisticado e arranjos elaborados, usando e abusando de teclados e piano, em uma mescla de instrumentos digitais e analógicos. A prova disso são as faixas “Carência No Frio", uma balada digna de aplauso e as canções “Nicole Versus Cheng” e “Compromisso” ambas trazendo uma pegada jazzística, maravilhosas. Um ponto forte do álbum que me chamou a atenção, é justamente a liberdade – no sentido de cantar de maneira solta e despojada – Ed nem parece um cantor consagrado, seu vocal soa e transmite alegria, principalmente nas faixas “Pé Na Jaca”, “Piquenique”, “Mensalidade” e “Bel Prazer”, músicas que certamente irão embalar boas festas.

A cada lançamento Ed mostra por que é um músico completo. A começar pelo instrumental, que digo sem medo de errar, hoje no Brasil não existe um músico tão versátil quanto o Ed. É só pegar os álbuns dele e perceber a linha que ele segue, apesar das mudanças no estilo, a qualidade instrumental é a mesma. Ed preza por isso e trabalha com músicos qualificados: Paulinho Guitarra, Robinho Tavares, Alberto Continentino, Aldivas Ayres, Roberto “Massa” Calmon, Marcos Kinder e tantos outros que tocaram com ele.

“Piquenique” trouxe as boas lembranças de volta, que nos remete aos velhos tempos, porém com uma roupagem atual. Se o álbum será um clássico, só o tempo irá nos dizer, qualidade pra isso tem de sobra.

Ed Motta "Pé na Jaca" (Altas Horas)


Site Oficial: Ed Motta



2 Musicólatras Comentaram:

Edison Junior disse...

Legal. Ed Motta é um desses artistas que não são valorizados como devem.

Rafhael Vaz disse...

De tempos em tempos tento conhecer melhor a música de Ed Motta. Conheço pouco, e desse pouco até gostei, mas po algum motivo nunca dou continuidade. Bom, já tá no meu ipod, dias desses volto a ouvir.